Festa Particular
Publicado em 30 de junho de 2009, às 09:40. | Deixe um comentário!
Artigo sobre Colunistas, Produção, Reflexão, Teatro.
Aconteceu em São Paulo, de 18 a 28 de junho, a “Festa do Teatro”, iniciativa do Grupo Parlapatões que visava distribuir ingressos de peças de teatro que estão em cartaz na capital. Com objetivos duvidosos, os organizadores contaram com o apoio da Prefeitura de São Paulo, do Metrô, do SESC-SP, Ministério da Cultura e patrocínio exclusivo do Grupo CCR, administradora de concessionárias rodoviárias, distribuindo um total de 30 mil ingressos para filas intermináveis que se formaram nos postos de entrega.

O evento teve algumas falhas bastante evidentes, como a distribuição de ingressos em dias úteis, a falta de controle nas filas, e assim por diante. Contudo, estes problemas logísticos devem ser facilmente corrigidos nas próximas edições, que decerto acontecerão. Mas, em minha opinião, esta “Festa do Teatro” teve um problema gravíssimo, que acaba sendo o cerne da questão da democratização da cultura, inclusão cultural, e todas estas temáticas insolúveis.
Quando surge uma proposta deste tipo, fico com um pé atrás. Não é novidade pra ninguém que distribuir ingressos gratuitamente não vai fazer com que as pessoas de baixo poder aquisitivo e baixo embasamento educacional retirem seus ingressos e participem de apresentações culturais. O buraco é muito mais embaixo! Estas pessoas não freqüentam estes lugares porque não pertencem a eles, e não sentem o mínimo vínculo com esta realidade. Um belo exemplo desta verdade crua pode ser visto no genial “Entre os muros da escola”, de Laurent Cantet. No filme, torna-se evidente que não existem demagogias capazes de minimizar a sensação de não-pertencimento, e principalmente o enorme abismo entre as classes desfavorecidas e a apreciação cultural.
Era nítido nas filas que as pessoas que estavam lá eram as mesmas que se interessam por cultura, arte, discussões rançosas e aparências alternativas, da qual a maioria de nós faz parte despreocupadamente. Apesar de ter sido patrocinado por uma empresa privada, acredito que os organizadores acabaram pensando mais em causa própria – com a garantia das casas lotadas por três finais de semana – do que na real democratização cultural, e viraram as costas para o gritante fato de que o acesso à cultura é de natureza excludente, se alicerçado nas mesmas estruturas. Com esta verba, acredito que seria possível a construção de propostas que efetivamente ligassem uma parte à outra, como a criação de grupos de teatro com atores de baixa renda, tendo-os como parte ativa do processo, a exemplo do grupo fluminense Nós do Morro, que faz um belíssimo trabalho na Favela do Vidigal desde 1986.
A concepção da democratização da cultura deve, antes de qualquer coisa, suprimir os interesses individuais em detrimento de um bem maior, para que, desta forma, não volte a ser apenas mais uma discussão em rodas intelectualóides.
Victor Gouvêa
Por que Paraty?
Publicado em 8 de junho de 2009, às 00:07. | 2 Comentários
Artigo sobre Cultura Popular, Folclore, Literatura, Livros, Patrimônio, Turismo.

Em menos de um mês, acontecerá um dos mais esperados encontros literários: a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Não é como algum evento de inverno em Campos do Jordão aparenta ser: vazio, onde se tem a impressão de que muitas pessoas vão apenas para ostentar. Essa festa é uma ótima oportunidade para conhecer gente interessante, desde os autores e palestrantes até o público do evento.
Por que Paraty? Paraty tem um conjunto arquitetônico rico, foi um dos grandes portões de entrada do Brasil e viveu seu auge no período aurífero. Estagnou no tempo. O que trouxe a região (litoral Sul do RJ até o Litoral Norte de São Paulo) novamente para o mapa brasileiro foi a estrada Rio-Santos (anos de 1950). E isso ajudou Paraty a cultivar lendas e tradições em tal ambiente de outros tempos, com pouquíssima interferência desenvolvimentista dos grandes centros. Assim como na Biologia, é uma relação de protocooperação: ao mesmo tempo em que a FLIP traz aspectos de requinte intelectual à cidade, a cidade dá ambiência de séculos passados ao evento.
Então, não é nada inteligente ir para a FLIP sem o conhecimento razoável de Paraty. Não só a história oficial contada por séculos, mas também seus contos passados pela oralidade. Por isso, recomendo o livro Paraty - Encanto e Malassombras, de Thereza e Tom Maia.
Esta obra é resultado de pesquisa realizada entre os anos de 1973 e 2005. Pelo nome, pode dar a impressão de que tem muitas páginas com as “malassombras”, mas não. Ele é um “guia cultural” com a história da cidade, pequena descrição sobre as festas, bibliografia (boa lista de referências para outros estudos) e histórias contadas por moradores envolvendo alguns pontos da cidade. Estas últimas foram escolhidas por serem as mais repetidas “dentre as mais de sessenta fitas gravadas” em campo. Também há muitas coisas em inglês. Isso tudo dá corpo às 166 páginas do livro.
Farinha de Suruí
Aguardente de Parati,
Fumo de Baependi,
É só comê, bebê, pitá e caí.
Os autores são o casal Thereza e Tom Maia, que se apaixonaram pela cidade desde a primeira visita em 1958. Junto com outras pessoas, também são responsáveis pela fundação do Instituto Histórico e Artístico de Paraty. Outra obra que parece ser bastante interessante deles (ainda não li) é Paraty – Religião e Folclore, premiada pelo MEC. Isso mostra o quanto se dedicaram pela memória material e imaterial da cidade.

- Foto de Gláucio Dutra Rocha

Caso não esteja com sono durante a madrugada, vale pegar o livro e dar uma volta pela cidade procurando “os seres da noite”. Com certeza a FLIP será outra depois de encontrar o “Coveiro Ladrão” ou talvez a carruagem de Dona Geralda…
Boa festa!
Olé
PS: Este documento pode ajudar, caso não encontre o livro até a FLIP.
Crédito da última foto: Gláucio Dutra Rocha.
Desvendando estantes alheias
Publicado em 31 de maio de 2009, às 23:02. | 2 Comentários
Artigo sobre Literatura, Livros, Shows.
Algumas amigas resolveram montar um grupo de leitura. Como todos temos vidas atarefadas, o ideal seria cadastrar as obras na internet para que pudéssemos trocá-las. Puro compartilhamento de estantes! Mas estávamos com uma grande dificuldade em fazer isso de maneira fácil e acabou ficando um pouco esquecido.
Mas nem tudo estava perdido! Uma delas, a Tauana, nos apresentou neste fim de semana o Skoob! É uma rede social de leituras. Nela você pode dizer quais livros leu, avaliá-los, dizer os que está lendo, resenhar, expor sua estante, dizer os que deseja, seus favoritos, os emprestados, os que quer trocar… Até diz se as pessoas têm um perfil de leitura parecido, tudo baseado nos cadastros de livros, avaliações etc.
Uma ótima ferramenta para fazer com que as pessoas leiam mais!
Pra mostrar como o Skoob está a todo vapor, alguns números extraídos do blog do serviço:
524.738 quantidade de livros lidos pelos usuários do Skoob.
18.337 quantidade de livros que estão sendo lidos.
109.119 quantidade de livros que ainda serão lidos.
1.381 quantidade de usuários relendo um livro.
9.114 quantidade de leituras abandonadas.
Top 3 dos livros mais lidos no momento:
1 - A menina que roubava livros (310 - leitores)
2 - A Cabana (207 - leitores)
3 - Eclipse (178 - leitores)
Top 3 dos livros mais abandonados:
1 - O Mundo de Sofia (290 - abandonos)
2 - A menina que roubava livros (115 - abandonos)
3 - O Código Da Vinci (105 - abandonos)
Top 3 dos livros que os usuários mais querem trocar:
1 - O Código Da Vinci (20 - querem trocar)
2 - O caçador de pipas (13 - querem trocar)
3 - O Monge e o Executivo (12 - querem trocar)
Os desenvolvedores já adiantaram através do twitter que mais novidades virão e tornarão ainda melhor a sua navegabilidade. Quem sabe se não adicionam links para livros raros (ou de domínio público) que estejam em pdf. Uma parceria com a Brasiliana USP seria sensacional! (Assista a esta reportagem também).
Ah, o sítio é em português, mas permite o cadastro de obras em outras línguas.
Tenho certeza que irá pegar (pelo menos entre os que gostam de ler). E tem tudo para impulsionar quem não tem o costume. É a internet nos fazendo ficar cada vez mais offline.
Boas leituras!
Olé
Produtos não perecíveis
Publicado em 21 de maio de 2009, às 10:24. | 1 Comentário
Artigo sobre Colunistas, Em cartaz / A ser exibido, Exposições, Reflexão.

Neste sábado fui à exposição do artista brasileiro Vik Muniz que está acontecendo no MASP, e tenho algumas observações a tecer sobre. Antes de ir, me muni de algumas críticas feitas por pessoas entendidas no assunto, para saber o que estavam pensando sobre o artista e a exposição. Sabe que eu não tive a melhor impressão do mundo? Críticos metendo o pau no cara, principalmente referindo-se à arte dele como comercial. Confesso que adquiri um dilema. Para mim, outras formas de expressão artística são mais fáceis de identificar como sendo um trabalho comercial ou conceitual, pensado ou vendido, construído ou parido. Por exemplo, na música. É gritante a diferença de um trabalho do Harmonia do Samba, para um do Paulinho da Viola. No teatro, por exemplo, como citei anteriormente, do Teatro Oficina para as peças que acontecem no teatro da Gazeta. Que dirá, então, dos livros? Mas… e nas artes plásticas?
Pode até ser uma ignorância enorme da minha parte fazer uma comparação destas, mas, a partir deste raciocínio, poderíamos considerar algumas das mais famosas obras renascentistas como comerciais, afinal muitos quadros pintados por grandes mestres da pintura foram feitos sob encomenda de famílias aristocratas da época. E não é, por sua vez, comercial? O mérito destes pintores fica esvaziado em algum momento por terem realizado obras para pagar o pão de cada dia? Acho que é uma reflexão pertinente. O Brasil tem atualmente três grandes nomes de artistas plásticos que figuram em todo o mundo como ícones de uma contemporaneidade artística criativa: Romero Britto, Beatriz Milhazes e Vik Muniz. Curiosamente, todos eles são acusados pelos mais puritanos de fazerem arte comercial.
Quando eu estudei Artes, da 5ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, recebi alguns ensinamentos de uma professora muito interessante. Profª Juce. Tentava insistentemente levar para nós todo o conceito de arte que estava embutido, desprovendo-nos de crítica no sentido negativo da palavra. Bem me lembro certa vez que nos trouxe a uma Bienal de Artes de São Paulo, e apresentou algumas instalações-conceito. Muitos - inclusive eu - torcemos o nariz para obras que não se enquadravam naquele limiar de aceitação que estabelecemos para as artes plásticas, baseados em experiências prévias claramente impressionistas. Ela buscava inserir aquela obra dentro da nossa margem crítica para aprendermos, no mínimo, a respeitar o trabalho daquele artista. Desta forma, aprendi na prática a respeitar qualquer manifestação artística que me fosse sugerida, buscando sempre sua essência como forma de justificar sua existência.
Assim que entrei na exposição de Vik Muniz, já com alguns pré-conceitos formados como supra citei, e, tão logo li o release da exposição e do pensamento do artista, quebrei imediatamente todas as barreiras que foram criadas. Entendi que poderia esperar mais do que arte comercial daquele cara. É óbvio que às vezes ele esbarra mesmo no comercial. Mas acredito que isso não faz desmerecer tudo aquilo que ele faz de bom, e seria um reducionismo enorme e injusto. São as obras mais sinestésicas e efêmeras que eu já vi na minha vida. Vik faz releituras de grandes obras utilizando-se de materiais perecíveis, como calda de chocolate, geleia e pasta de amendoim, por exemplo. Não é possível passar por aquela exposição e não se sentir tocado por nada. Eu, por exemplo, fiquei extremamente comovido pela série que ele fez com açúcar, reproduzindo fotos de meninos que conheceu em uma viagem ao Caribe, e tinham seu destino traçado inevitavelmente para a colheita de cana-de-açúcar. É de uma ironia e perspicácia muito fina a sequência apresentada. Ou, ainda, a forma como acontece a comunicação do material utilizado com a obra, ou a incessante experimentação de novas técnicas. Talvez, ainda, como a percepção do material e da obra se desdobre em mais de uma vertente conforme a distância que se aprecia. Aliás, vale a dica de ir à exposição durante a semana, pois costuma encher nos finais de semana, o que impede que cada um experimente tranquilamente diferentes distanciamentos das obras, e suas sensações.

Concluo garantindo: Não perca esta exposição. Comercial ou não, Vik Muniz justifica seu reconhecimento internacional pela genialidade contida em pequenos detalhes. É preciso ter olhos de ver.
Victor Gouvea
Realização e coordenação: Aprazível Edições e Arte – Leonel Kaz e Nigge Loddi
Patrocínio: Bradesco Seguros e Previdência
Direção de montagem: Emílio Kalil
Programação visual: Jair de Souza
Vídeos: Fabio Ghivelder
Montagem: Arquiprom / Fernando Arouca
Exposição: de 24 de abril a 12 de julho de 2009
Horário de visitação: terça a domingo e feriados, das 11h às 18h; às quintas, das 11h às 20h.
Ingresso:
Inteira – R$ 15,00
Estudantes - R$ 7,00
Menores de 10 anos e maiores de 60 anos – Gratuito
Às terças-feiras a entrada é gratuita
Local: Museu de Arte de São Paulo – MASP
Endereço: Av. Paulista, 1578
Telefone: (11) 3251 5644
Classificação etária: livre
Estacionamento pago no local
Acesso a deficientes
Oficina da Resistência
Publicado em 15 de maio de 2009, às 12:02. | 2 Comentários
Artigo sobre Colunistas, Patrimônio, Teatro.

- Teatro Oficina (Foto: Luís Ushirobira)

A primeira experiência foi muito intensa. Fui assistir “Homem I”, segunda parte da epopéia do Sertão que o Teatro Oficina se propôs a construir. O grupo Uzyna Uzona apresentava – com incontáveis influências diversas – em 6 horas de textos em prosa, uma parte da obra de Euclides da Cunha. Não é fácil de digerir. A energia que rege o Oficina é muito forte, Dionisíaca. Mas era impossível não assistir a tudo que aquela reunião de pessoas fazia, por ser obviamente cercado de muita paixão, profissionalismo e libertinagem psicológica. Tudo isto sob a batuta experiente do profeta José Celso Martinez Corrêa, nome facilmente lembrado como um dos maiores teatrólogos que o Brasil já teve.
É Teatro de Resistência. Resistem, há 50 anos completados em 2008, a todas as intempéries que o alternativo sofre. Atualmente resistem “à força da grana que ergue e destrói coisas belas”, na sua forma mais real. Silvio Santos quer destruir o Teatro Oficina. O empresário almeja construir um Shopping Center na área que é tombada pelo Condephaat. Zé e o grupo resistem, mais uma vez, sugerindo outro aproveitamento para a área: O Anhangabaú da Feliz Cidade. A proposta inclui a Universidade Antropófaga – com claras referências a Oswald de Andrade -, uma área verde, uma Ágora e um Teatro de Estádio, com capacidade para 5 mil pessoas.
Sua sede não poderia ser mais significativa. Estão no coração da capital paulista, em uma edificação assinada por Lina Bo Bardi, arquiteta modernista, autora, entre outras obras, do MASP e do SESC Pompéia. É impressionante como aquelas pessoas comunicam com o espaço em que estão inseridas. Atores sobem e descem rapidamente escadas improvisadas que conduzem ao céu. Tornam-se anjos, também, por dar oportunidade de contato com a cultura para crianças carentes, através do Movimento Bixigão. Aliás, um dos méritos do Teatro Oficina é a popularização da cultura. Tentam de diversas formas levar para o grande público seu trabalho, seja pelos preços populares das bilheterias, ou mesmo apresentações gratuitas que realizam fora de sua sede.
Muitas vezes se faz necessário um maior embasamento para compreender todas as entrelinhas com as quais se comunicam. Recomendo fortemente que comprem os livretos confeccionados para clarear algumas referências que se utilizam. É difícil explicar a intensidade do trabalho que estas pessoas fazem apenas com palavras. Deve ser degustado sem moderação nenhuma de forma pessoal e intransferível. Proporcionaram conhecer mais. Fizeram que eu lesse novamente Euclides. Apresentaram o Teatro Nô. Resgataram meu interesse por Oswald de Andrade. O Teatro Oficina é mais do que se propõe: É necessário.
Victor Gouvea

