Indústria de Cultura Ltda.
Publicado em 17 de outubro de 2007, às 12:32.
Artigo sobre Música, Reflexão.
Este post foi publicado pela primeira vez em 12 de março de 2007, no Blog da ECA Jr. O texto está na íntegra.

Foto: Rubinhow Vitti hospedada em Música e Letra
“Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
Bem-vindo ao teatro mágico!
sintaxe a vontade…”
Estava com muita vontade de escrever este post desde o ocorrido, mas precisei refletir muito antes…
Quarta-feira (28/02/07), houve uma apresentação do grupo O Teatro Mágico durante a semana de recepção dos bixos. Aprecio há algum tempo a maravilhosa mistura de poesia, teatro, música, circo, literatura, idéias e anticlichês que eles transmitem ao público em seus espetáculos. Sempre os admirei muito por serem artistas completos. Chamo de completo quando há, entre outras coisas, questionamentos. Já vi diversos artistas dizerem algo em um show para o público vibrar com claro intuito estético, trocando em miúdos, só para o show ficar mais bonito. O TM vai muito além disso. Não basta apenas dizer ao público que música não é comércio, tem que ter o endereço na internet www.oteatromagico.MUS.br; tem que vender seu CD a R$ 5,00; tem que colocar as músicas gratuitamente na internet e, além disso, falar para piratear seu próprio CD! É a diferença entre a hipocrisia e viver aquilo que se prega.
“…Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz…”
Fernando Anitelli
Sei que o ser humano é contraditório. A arte também. Mas é decepcionate ver artistas indo contra suas próprias idéias quando fazem um simples anúncio de cerveja. Não defendo que as pessoas têm que nascer e morrer com as mesmas idéias, o problema está em esquecê-las só para assinar um contrato publicitário. E como o TM acaba indo contra o sistema, é natural que faça o mesmo com os protagonistas: artistas como Armandinho e Felipe Dylon foram alvejados com doses de escárnio durante o show… Também satirizaram o funk apelativo, fazendo movimentos característicos ao som da batida tradicional. A crítica era clara à indústria cultural que, logicamente, não faz perguntas, apenas “inocentes” afirmações. Não era nada pessoal.
Logo que o TM saiu do palco e o público começou a se dispersar, uma pessoa pegou o microfone e disse que a música brasileira deveria ser respeitada: o funk, o rap, o hip hop, a mpb… e satirizou o mote do TM: “Os opostos se distraem, os dispostos se atraem”. Concordo que todos têm direito de expressar suas idéias, mas teriam que ter dado o microfone para todas as pessoas que estavam lá. Como não tinha microfone, parte do público respondeu com vaia. Essa pessoa que disse isso, com certeza, é igual àquela gente que, em uma discussão, quer dar a última palavra; como se seu pensamento fosse uma idéia incontestável, um dogma.
Desprendendo disso, comecei a pensar porque a difusão de algo, na maioria das vezes, é inversamente proporcional a qualidade dela.

Geralmente, e principalmente nos últimos anos, lixo é o produto cultural oferecido para as grandes massas. Apelo pornográfico, desvalorização da figura feminina… vira sucesso! A primeira coisa que me veio à mente foi a falta do exercício de reflexão que deveria ser desenvolvido na escola. Ela deveria ensinar as pessoas a pensar! Por isso, sempre parti da premissa que para alguém apreciar Natureza Morta, por exemplo, deveria ter uma boa bagagem cultural. Isso caiu por terra quando um músico, com formação clássica (mais de 7 anos de estudo) confessou-me que gosta de funk, psy… e que não gosta, por exemplo, de mpb.
Começar a refletir se é certo julgar a qualidade da arte foi rápido. Porém, demorei muito tempo pensando sobre isso. Se há pessoas que gostam, eu estaria certo dizendo se é ou não de qualidade? A resposta que encontrei está no começo do texto. O quanto mais uma obra trabalhada for, quanto mais detalhes tiver, quanto mais elementos deter e quanto mais reflexiva for, mais completa e de maior qualidade ela é. Isso não quer dizer que obras com “menor conteúdo” não possam possibilitar às pessoas a primeira função artística: a de transformar o estado de espírito do ser humano, de dar prazer, de fazê-lo sonhar… enfim, de emocionar!

Foto: hospedada em Hermaníacos
Essa é minha opinião até agora e não um dogma. Se você tiver algo a acrescentar ou a tirar, basta pegar o microfone e comentar. Semântica à vontade!
Até mais!
Olé
PS: Fotos do show na USP em 28/02/03, na seção “Imagens”
- Por Martha Lange.
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