Virada Cultural – Impressões

Publicado em 7 de maio de 2008, às 15:44.

Artigo sobre Colunistas, Festivais, Reflexão.


A primeira impressão que tive da Virada Cultural, em São Paulo, foi “Que incrível, em que outro momento eu poderia andar com tanta tranquilidade no meio de uma das movimentadas ruas do centro. E essas pessoas? Tantas, indo e vindo, a essa hora…”. Era 11 horas da noite, e a festa mal tinha começado…

Estava imerso num mundo incomum, extremamente diverso, na medida em que novo e imprevisto. A última virada que eu pude participar já faz dois anos, e eu não tinha até então experimentado o centro a noite.

Eu caminhava para uma republica em que ficaria hospedado durante a Virada. Ela, fincada no centro de São Paulo, próxima a estratégia estação Anhangabaú. Estava tão empolgado com a empreitada que saindo do metrô segui para o lado errado, para a direita em vez da esquerda. Passavam pequenos vendedores, casais, punks, rappers, góticos, metaleiros, hippies, engravatados, descalçados, desquitados. A paulicéia aportava no centro.

Dois olhos era pouco para perceber tudo. A dimensão das possibilidades embriagava. Subi ao apartamento da república ansioso para o início das atividades. Já havia feito minha programação, que, no saldo do evento, pouco adiantou. Findada a arrumação das companhias, saímos em busca das possibilidades.

Uma acrobata subia em tiras de pano, a cinco, dez, quinze metros do chão. Um palhaço buscava algum lanche. Um piano soava a esquerda. Um blues se estendia a frente. Filas cresciam nas lanchonetes. Uma pesquisadora se perdia na multidão de caminhantes…

Fiquei admirado com a imensidão do evento. Qual o esforço logístico para viabilizar tamanha empreitada? Com quantas pessoas se faz essa canoa? Como articular tudo isso junto? Algo admirável.

Dividir os palcos por atrações e estilos é algo genial. A divisão era local e não regional. Não havia uma graduação entre os estilos. Cruzava-se dos clássicos, aos blues, ao hip-hop, ao trash, numa questão de duas ou três quadras. Uma over-dose de ecletismo.

No segundo dia, eu estava descansando na república, assistindo ao programa do Rolando Boldrin, que definitivamente merece não um post, mas uma bibliografia inteira, uma enciclopédia – Assistam ao Sr. Brasil, na TV Cultura. Como sempre, algum grupo muito bom e quase desconhecido do mundo “globalizado”, teve seu espaço. O grupo era o Quinteto Violado. Fiquei fascinado pela estética da música deles, das interpretações. Tinha acabado de acordar e arrastei uma republicana para conhecer o programa. Tão logo abrimos o cardápio da Virada e, maravilha!, a banda iria tocar no centro dentro de 15 minutos. Acordamos de vez e saímos para ver os matutos. Musica regional, nordestina, da melhor qualidade, com fina apresentação e execução. Forrós, frevos, entre outros.

Aí então, o universo de possibilidades aberto se mostrou nitidamente. Que loucura sadia era aquilo tudo.

Mas houve um lado ruim. Há sempre, em maior ou menor grau, aqueles que se perdem por aí. Não eram poucos os corpos espalhados no chão, vencidos pelo cansaço e pelos excessos. Ocorreram casos de brigas, mas até onde foram meus olhos e ouvidos, nada suficiente para estragar a festa. A polícia foi eficiente e suficiente. O ideal seria que ela fosse absolutamente desnecessária. Mas o buraco cultural é grande, tanto quanto a sujeira encontrada nas ruas. Mas, novamente um mas, dada as proporções do evento, poderiam ser ainda maiores as consequências, as pessoas se portaram até que bem.

Há quem brade agora, visto o saldo, por maior policiamento, penas mais severas, leis mais severas, que acabem ou minguem com essa Virada, que virou de cabeça pra baixo no centro.

Esse tipo de medida não difere muito imposição de camisas de força, da obrigação do cabresto, do controle ao acesso ao conhecimento, da censura, o princípio e objetivo é o mesmo, o da amputação das liberdades conquistadas, injustificável apesar dos excessos cometidos

O buraco é mais embaixo.

A questão é cultural e, antes disso, política.

O problema é a educação. Não a do povo, aquela dada pelos pais, mas da fornecida na escola. Me recordo dá frase dita por uma professora, estressada durante uma aula, aos gritos afirmava, impunha: “Não é função da escola fazer de vocês pessoas educadas”, querendo dizer que má-educação não é da alçada das escolas.

Engano, grande engodo. A meu ver, a função primeira da escola, antes mesmo de tudo aquilo que é previsto na grade curricular do ensino básico e médio, é fundamentar nas pessoas tudo aquilo que os pais não são capazes, seja por tempo, seja por impotências ou valores desviados. Numa palavra, a função das escolas é formar cidadãos, dando as ferramentas necessárias para isso.

Assim, deveria caber às escolas públicas, principalmente, o ensino de matérias como: cidadania, direto básico, deveres e possibilidade de subversão. Do contrário, as pessoas formadas por essas escolas quando muito resultam em autômatos, como peões num jogo de xadrez, onde abrem caminho para as peças ditas de maior valor, se sacrificando pela falácia de um maquiado bem-comum.

Aprender cidadania por que, vivendo em sociedade, é imprescindível desenvolver uma empatia social e não somente pessoal, saber das suas liberdades, direitos e deveres, e, acima disso tudo, saber subverter o sistema na medida em que ele subjuga, não representa e tampouco responde as necessidades da sociedade que o elege e o sustenta. O resto é complemento.

Cidadão não é outra coisa que a um ser social, crítico e participativo.

E há quem não queria que existam cidadãos.

A Virada Cultural, enfim, trouxe além de atrações, possibilidades de reflexão.

Bruno Incáo


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