
Devo confessar que não foi muito boa minha primeira impressão do filme “Nossa vida não cabe num Opala”. A estética era muito bonita, a fotografia puxava sempre os tons mais noturnos e bonitos de São Paulo e o filme guarda várias referências escondidas pelos cantos. Mas o filme não se fechava pelo simples fato de se passar nos dias de hoje.
Tudo no filme parece deslocado 20 anos no tempo. A família de ladrões continua a robar Opalas como seu pai fazia desde sempre, as músicas ainda tocam de velhos vinis e os criminosos não utilizam armas, lutam com as próprias mãos no Boxe clandestino.
O filme já começa emblemático, com a morte do pai de quatro irmãos sem mãe. Tudo normal, caso este não fosse ladrão de carros e este ofício não tivesse sido passado aos dois mais velhos. O filme se fecha com aparições do falecido aos quatro, mas impreterivelmente estes não seguem seus conselhos e acabam por cumprir o destino que o pai havia traçado para eles ainda em vida. Deste modo um final ainda mais emblemático que o começo faz com que o espectador saia da sala com reflexões.
Depois de refletir pude perceber que a incoerência temporal no filme ocorre pela coerência da própria estória, onde o pai já havia determinado aquele destino muitos anos antes, e assim ele se cumpre do mesmo modo dentro do mesmo cenário.
Por fim tive a oportunidade de conversar um pouco com o diretor Reinaldo Pinheiro, que já havia dirigido 7 curtas e apresenta agora este seu primeiro longa-metragem. Ele falou sobre o roteiro baseado em um texto do dramaturgo Mário Bortolotto e sobre a dificuldade de se fazer cinema no Brasil.
Imaginem que super-produções americanas, como o Batman, tem custos de produção que chegam a 200 milhões de dólares, enquanto este filme custou um pouco menos de 2 milhões de reais. Ou seja, seria possível gravar 200 filmes como este com o mesmo orçamento dos americanos.
Pode não ser o melhor filme do ano, mas “Nossa vida não cabe num Opala” vale o ingresso pela reflexão da sociedade que o filme provoca. Ele guarda ainda surpresas como a última aparição de Dercy Gonçalves no cinema. Deixo aqui o Making Of da participação especial que a atriz fez em um trecho do filme.
Making Of Dercy Gonçalves
Daniel Possa
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