Acadêmicos a portas fechadas

Publicado em 28 de setembro de 2008, às 22:41. | 1 Comentário

Artigo sobre Academia, Colunistas, Literatura.


O discreto e secreto charme da Academia Paulista de Letras.

Academia Paulista de Letras

O Largo do Arouche, centro da capital paulistana, está calmo. Poucos carros e poucas pessoas caminham em frente aos antigos prédios. Histórias parecem querer brotar do chão, das árvores. As estátuas, a qualquer momento, contarão alguma história dos tempos em que o local era sinônimo de sofisticação. Em um dos prédios, escondido entre duas árvores de copas largas, a serenidade do Largo é rompida por uma discussão acalorada.

Para chegar até à discussão, o elevador é o caminho. A ascensorista lê um livro. No andar de carpete escuro e quadros de antigos presidentes, as portas estão fechadas, ninguém entra. Vez ou outra o corredor do terceiro andar é tomado por algum senhor que abre a porta. Aliás, o corredor mantém o mesmo ar sereno do Largo.

Um jovem escritor, que não é imortal, está sentado em um dos sofás de couro verde, mais precisamente no sofá central. Ele espera, com um copo de cerveja pela metade, por Inácio de Loyola Brandão, um dos acadêmicos que não compareceu às 17h daquela quinta-feira 11 de setembro, horário que normalmente acontecem as reuniões.

A Academia Paulista de Letras, abrigo de alguns intelectuais do estado de São Paulo desde 27 de novembro de 1909, parece querer se esconder do mundo. Algo como uma sociedade secreta. Mas Geraldo Dias Moreira, o redator de atas da academia desde 1976, afirma que “não há nada de secreto”. O que acontece é que “hoje em dia, tudo precisa de audiência, tudo precisa ser popular e a Academia não tem essa característica, ela é discreta, tem um charme”, comenta Walcyr Carrasco, o mais novo imortal empossado na semana anterior.

Nomes como os de Mário de Andrade, Plínio Salgado, Marcos Rey, Sérgio Buarque de Holanda, Monteiro Lobato e Menotti Del Picchia ocuparam algumas cadeiras. Atualmente, as cadeiras, não as mesmas necessariamente, acolhem Lygia Fagundes Teles, Gabriel Chalita, Jorge Caldeira, Paulo Bomfin, Mindlin, Ruth Rocha e muitos outros.

O prédio que acolhe os imortais dá uma sensação de coisas ocultas, de conversas ao pé do ouvido. Do corredor, ouve-se vozes fortes em discussão. “Briga de homenzinhos”, alguém comenta tentando suavizar o que parece estar sério. A reunião de uma hora encerra-se. A porta enfim se abre. Os acadêmicos parecem correr em busca de algo: a saída. Os poucos presentes na reunião, não mais de 15 segundo o redator de atas, vão em direção ao elevador. Ficam cerca de cinco a tomarem o café da tarde que é servido na sala em frente à porta do entra e sai de senhores da reunião.

Os imortais olham desconfiados, sentem que há pessoas diferentes, fogem. Eles fogem da caneta e do bloco de papel. O presidente, José Renato Nalini, faz parte do grupo que procura a saída. No elevador, ele declara que “infelizmente não pode falar, está atrasado para ir dar aula”.

Duas senhoras comentam sobre o rapaz sentado no sofá verde. Uma pergunta para a outra quem poderia ser aquele. Se era homem ou mulher, ou o que era. Ela parece não gostar da presença dele, logo vai embora. A outra segue para a sala de chá, onde a discussão da reunião não termina. Alguém diz que não se deve xingar os outros. Outro diz que não é com gritos que as coisas mudam.

Ana Maria Martins, uma imortal de andar e roupas tradicionais e secretária geral desde 2007, antes de ir tomar seu chá fala em voz fraca que não pode responder a muitas perguntas, pois acaba de sair de uma forte gripe. Ela explica que “a Academia defende a língua portuguesa” e que, para ela, “ser acadêmica é ser reconhecida”.

Diferentemente dessa quinta-feira, as reuniões costumam ser abertas ao público, essa reunião foi um caso especial. Questões institucionais precisavam ser discutidas à portas fechadas.

Restam três acadêmicos na sala do chá, bolo de cenoura com cobertura de chocolate e os pasteizinhos que Ana Maria Martins diz ter adorado. Dois homens escondidos em seus bigodes acompanham a secretária geral. Eles, depois de meia hora de chá, fogem para o elevador.

A senhora Ana Maria ainda caminha do corredor até a sala da secretaria. O prédio já está vazio. A biblioteca e a sala de leitura já encerram suas atividades do dia. A porta de entrada, ou saída, no térreo está fechada. O porteiro abre o Largo do Arouche, que já se põe. A Academia Paulista de Letras dormirá mais uma vez.

Lucas Rossi




Espetáculo de Sensações

Publicado em 24 de setembro de 2008, às 15:52. | Deixe um comentário!

Artigo sobre Dança, Plásticas, Shows, Teatro.


fuerza bruta

Hoje é a estréia de Fuerzabruta aqui em São Paulo. O espetáculo argentino é dos mesmos criadores da Cia De La Guarda e teve sua primeira exibição no ano de 2005, em Buenos Aires. Desde então, já passou por diversas cidades do mundo.

A peça em si é muito inusitada. O público fica reunido dentro de um galpão e o palco está em todo o lugar. Acontecem intervenções em todas as direções, de maneiras diferentes explorando alguns sentidos e os atores interagem muito com a platéia. Em alguns momentos o espetáculo vira uma grande balada onde todos dançam. Por isso, roupas confortáveis são fundamentais.

Confesso que estava com o pé-atrás, pois no que li (até mesmo no material para imprensa) dizia que o espetáculo não tem conceito nenhum. Tudo me levava a crer que seria apenas um grande show de qualquer parque de diversões. Mas eu tinha uma pequena pontinha de esperança que poderia estar alinhado com conceitos de arte mais abertos.

fuerzabruta

Depois de assistir à pré-estréia, consigo ver que agrada a gregos e troianos. Pra mim, o espetáculo inteiro tem sentido; tudo tem razão de ser. Até mesmo a aglomeração de pessoas mostra a “fuerza bruta”. E, ao mesmo tempo, quem quiser só curtir o show de sensações ficará bastante feliz.

fuerzabruta

Só não espere grandes interpretações, pois essa peça é mais próxima das artes visuais do que das cênicas. É uma grande mistura de plásticas, circo e teatro (utilizando muito dinheiro para a produção). Como se tudo aquilo estivesse acontecendo na nossa mente, ou no imaginário coletivo da sociedade ocidentalizada contemporânea…

Vá pronto para abstrair.

Bom espetáculo!

Olé

Peça: Fuerzabruta
Direção: Diqui James
Direção Musical: Gaby Kerpel
Local: Parque Vila Lobos – São Paulo (SP)
De 24 de setembro até 12 de outubro de 2008 (Prorrogado até 09/11)
www.fuerzabruta.net ou www.fuerzabruta.com.br




Literatura, Cinema e Blogosfera

Publicado em 18 de setembro de 2008, às 10:02. | 1 Comentário

Artigo sobre Blogosfera, Cinema, Literatura.


Para quem acompanhou a ansiedade por assistir “Ensaio Sobre a Cegueira” de Fernando Meirelles, desde nosso post sobre o blog da produção até um post sobre Saramago, o tempo de esperar acabou. O filme estreiou na última sexta-feira no Brasil e pudemos finalmente conferir o ensaio no cinema.

Sempre que um livro é transformado em filme as comparações são inevitáveis e os defeitos são sempre colocados no filme. Para mim são duas formas completamente diferentes de contar uma história e prefiro não me ater aos detalhes do que falta no filme ou do que mudou em relação ao texto. O que posso dizer com certeza é que, tanto quanto o livro, o filme deixa o espectador com reflexões ao final, ninguém passa intacto.

A violência, que nos primeiros testes de montagem havia sido vista como extrema ou muito forte, foi atenuada mas ainda incomoda bastante. Mesmo depois das exibições no festival de Cannes o filme foi modificado, chegando ao formato final que podemos ver no cinema. Enfim, vamos deixar maiores informações para a telona, já que o ingresso vale muito a pena.

saramago caderno

Entretanto outra notícia envolvendo José Saramago me chamou mais a atenção esta semana do que o filme. A estreia do autor na Blogosfera. Dentro do site da Fundação José Saramago estreou o Blog “O Caderno de Saramago”, diretamente acessado pelo endereço:

caderno.josesaramago.org.

Lá é possível conferir alguns texto de opinião do autor, como ele mesmo descreve no blog: “Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros. Portanto, pelo que isso possa valer, contem comigo.”

Daniel Possa




Revelando São Paulo

Vou dizer, com sinceridade, que já estava com saudades.

Hoje, sexta-feira, às 18h, começa a décima segunda edição do Revelando São Paulo. O delicioso festival da Cultura Paulista Tradicional.

Como sempre, e não poderia deixar de ser lá, o evento ocorre no Parque da Água Branca, São Paulo, capital, que fica pertíssimo, um quarteirão de distância, do Terminal Barra Funda.

Lá, o pessoal mais afeiçoado pela cultura típica poderá vivenciar brincadeiras típicas, uma exposição maravilhosa de artesanatos locais e culinária da boa mesmo… Você terá a oportunidade de ver de pertinho a Imagem Peregrina da Nossa Senhora Aparecida das Águas, que chega ao parque no domingo, às 11h. Eu, que não sou uma pessoa muito da religiosa, só de ver aquele pessoal todo, em procissão, trazendo a santa, me comovo, aquela energia toda acaba mexendo muito com a gente. E isso é só um tequinho das coisas boas que acontecerão por lá…

Vai ter diversas apresentações de manifestações típicas regionais, como: grupos e orquestras de violas; cavalhadas, fandangos, causos, grupos folclóricos de cultura italiana, alemã, boliviana, cigana, lituana, espanhola, de cabo verde, de portugal, da grécia… bom, já deu pra perceber a dimensão e riqueza cultural que o evento nos possibilita a vivência.

Revelando São Paulo

Tudo isso, vale lembrar, num clima tão familiar quanto a casa da vó. Onde as pessoas passam o tempo todo, sorrindo, encantadas em descobrir, por vezes, que sua cidadezinha, escondida num recanto, tem uma riqueza folclórica de dar inveja em qualquer gringo. Foi lá que eu descobri as riquezas da minha cidade, Sorocaba, como a tradição no trabalho com o tear e as delícias da culinária tropeira (vale lembrar que o feijão tropeiro, e toda essa culinária derivada, é paulista, e não mineira, como costumam dizer, uma vez que ela decorre das necessidades das indas e vindas dos primeiros explorados destas terras que partiam do nosso querido estado)

Ah! Deixa eu falar um pouco mais do parque. Quando você for para lá (você não está sendo convidado, mas intimado por mim), você vai perceber o quanto aquele parque é uma luva para a proposta do evento. Lá tem um ótimo espaço para as bancas de culinária, corredores abertos para os artesanatos, uma cúpula brindada para a santa, uma arena linda, de chão de arreia, onde são feitas as cavalhadas, um estábulo onde é feita a culinária tropeira, e uma gramadão para os bichinhos descansarem. Fora as belezas do próprias do parque.

Mas, nem tudo são flores. O evento vem sofrendo uma pressão constante da administração do parque, que deseja retirar-lo de lá. Ano passado foi passado um abaixo assinado, pelos apoiadores do evento, solicitando que o evento fosse mantido. Uma tristeza só. Pelo do contra, é dito que o evento causa muito impacto, que o número de visitantes do parque aumento demasiadamente fora do normal, que vasos sanitários são quebrados (apesar dos banheiros químicos), plantinhas pisadas, que as lixeiras rapidamente saturam, entre outras coisas.

Revelando São Paulo

Tais fatos, são inquestionáveis e acabam sendo evidentes. Questionável é a postura daqueles que querem tirar o evento dali. Nenhum outro lugar de São Paulo apresenta estrutura tão adequada para um evento dessa riqueza cultural, afinal este estado se construiu sobre bases rurais. Nenhum outro lugar é tão acessível e permite cruzar com tanta fluência as culturas urbana e rural, folclórica e massificada. Nenhum outro lugar possibilitaria uma evidência tão significativa a Cultura Tradicional Paulista. Em nenhum outro lugar, os representantes da cultura regional se sentiriam tão em casa, e os visitantes tão fora de São Paulo.

É com grande pesar que se assisti essa tentativa de desconstrução dessa belíssima iniciativa de valorização da cultura tradicional, hoje ainda tão deixada de lado pelos meios de comunicação massivos, iniciativa privada e Estado. Eu sinceramente não sei dizer se os impactos no parque ocorrem antes por incompetências administrativas (daqueles que ignoram o porte do evento, e não preparam o parque para receber tal fluxo de pessoas, dinamizando a coleta de lixo, sensibilizando os visitantes sobre a manutenção do parque, abrindo diálogo e compartilhando a gestão do evento e do parque), por aversão a uma semana mais intensa de trabalho, ou por que o evento realmente rompe as fronteiras de um parque tradicional, trazendo uma dinâmica tão nova e rica que os conservadores não conseguem compreendê-la e, tão logo, administrá-la.

Enfim, para mim, a XII edição Revelando São Paulo é um misto de felicidade, tristeza e saudosismo.

Revelando São Paulo

Para saber mais sobre o evento: www.brazilsite.com.br.

Bruno Incáo




Um pouquinho de teoria

Publicado em 10 de setembro de 2008, às 00:55. | Deixe um comentário!

Artigo sobre Academia, Cinema, Colunistas, Teoria.


Esta semana a Cinemateca Brasileira e o CINUSP “Paulo Emílio” estão promovendo o seminário “Cinema digital: Novos formatos de expressão e difusão audiovisual”. O evento conta com palestras e uma mostra de filmes dedicados ao tema.

O objetivo central do seminário é colocar em pauta as diferenças que surgiram no mercado com a introdução da tecnologia digital dentro do cinema. O intuito do evento é promover uma troca de experiências entre pesquisadores, realizadores e profissionais do meio audiovisual, tanto brasileiros quanto estrangeiros, sem esquecer, é claro, dos meros espectadores e curiosos como nós. As mesas redondas estão divididas em quatro assuntos principais: produção, mercado, formação e preservação.

Para aqueles que tiverem um tempo e vontade de ir é só entrar no site  www.cinemadigitalnovosformatos.org.br e conferir a programação. Já para aqueles que tiverem preguiça ou não puderem ir até os locais, é só entrar no site e assistir ao vivo às transmissões. Não tem tempo de ver ao vivo? É só entrar no site do departamento de audiovisual da USP que o material ficará hospedado lá por um tempo. Opções é que não faltam!

Acho super importante eventos como esse que misturam a teoria e a prática. Devo ser meio tradicionalista, mas acredito que é a partir da teoria que se constrói uma prática consistente. Então, acho que a maior dica pra você que está lendo esse post é: corra atrás de informação sobre o que você gosta, seja em palestras, livros, filmes, Internet… informação nunca é demais (bem clichê mesmo!).

Até a próxima!

Marina Travassos




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