Ensaiando a Cegueira

Publicado em 5 de outubro de 2008, às 20:50.

Artigo sobre Cinema, Colunistas, Literatura.


blindness

Que já não estejamos de alguma maneira todos cegos, como seria deparar-se inesperadamente com uma epidêmica ausência da visão? – com grande teor sensorial e a provocar catarses, o filme “Blindness” dirigido por Fernando Meirelles nos convida – sem desmerecer a fantástica obra de Saramago na qual se inspirou – a refletir sobre a subjetividade contida nas (in)conseqüentes paixões que surgem a partir de um fato meramente corriqueiro: o (não) enxergar.

Valendo-se bem da proposta do escritor português na construção da trama, as imagens do filme se couberam numa mistura delicada e estridente de cores bem lavadas com a predominância do branco aludindo a uma epidêmica “cegueira branca”, toda enigmática, a assolar uma sociedade que, não por acaso, foi cenograficamente construída com imagens gravadas em vários países, muito embora não tenha, assim como todas as personagens, nome.

A começar pelo fato de que convencionalmente a cegueira não se dá por contágio e se relata como uma escuridão, a descrição que encontramos para os cegos saramaguianos parece bastante intrigante, pois se notarmos o branco como a cor capaz de refletir todos os raios luminosos – embora não tenha igual capacidade para absorvê-los – torna-se plausível pensarmos no que será que de fato absorvemos (se é que absorvemos) estando expostos as hipérboles luminárias cotidianas que nos guiam num caos de aparência ordenada – o mais de nossos reflexos.

Outro aspecto relevante da obra que foi traduzido com veracidade para as telas nos é sucitado pela ausência de nomes das personagens – afinal, que poderia sugerir o aparente vazio significativo? Súbito a perda da identidade, isto é, o fim da proposta de categorização convencional que nos permite apresentar-se como sendo, por exemplo, o José ou a Maria; na estória a categorização se faz pelo que concretamente se tem numa cegueira e pelo que se é a partir dela, muito embora designações como “mulher do médico” ou “rapariga dos óculos escuros” não sejam ricas maneiras de se apresentar. Talvez aqui encontremos um novo ponto crítico: como nos apresentaríamos enfim se não tivéssemos nomes? Isto é, que verdadeiramente reconhecemos em nós? – perfeita questão para dialogar com a da nossa absorção da realidade.

Tão importante quanto ressaltarmos esse pensamento é o concordarmos com todo aspecto passional que se desenvolve após a perda da visão: a cegueira é tanto o que permite a solidariedade quanto o que não consegue esfacelar o egoísmo, é tanto o que exacerba o potencial de sensibilidade quanto o que remete um primitivismo violento declarado, por exemplo, nas brigas desesperadas por comida ou mesmo nos hipertróficos impulsos sexuais não barrados por questões de uma ordem social que, teoricamente, não permitiria haver estupros em troca de alimentação ou mesmo o sexo numa qualquer situação cotidiana pública – a cegueira derreteria então qualquer espécie de limite a se considerar pela existência do outro, isto é, “olhos que não se vê, coração que não sente”? (SARAMAGO, 1995. P.250).

Vivemos então num mundo sinestesicamente anestésico no qual andamos cegados pelo excesso das coisas todas nos comportando feito os cegos saramaguianos sem sequer conseguirmos nos saber na atual realidade torrnando invisíveis coisas que se passam aos nossos olhos diariamente para enfim nos prostrarmos chocados com tamanha violência e animalização dos feitos de Meirelles em “Blindness” e do próprio autor no romance? – “despausado” pensamento de bom (ol)fato.

Que já não estejamos todos cegos.

Monise Martinez.

Nota: Saramago, J. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Blog de Fernando Meirelles: blogdeblindness.blogspot.com


Comentários

3 comentários para o artigo “Ensaiando a Cegueira”

  1. Thássius V' em 11 de outubro de 2008, às 17:40.

    Para mim, o melhor do filme é justamente o final, e não todo o drama que o precede. Porque a personagem de Juliane Moore acaba percebendo que agora sim, a cegueira dela iria começar. Uma cegueira com visão.

  2. Roberto Lemos em 30 de outubro de 2008, às 16:53.

    Achei bem interessante o post. No entanto, tenho lá minhas discordancias… Bom, a cegueira humana não vem de hoje, não vem do mundo corrido e sem tempo. Os gregos clássicos já eram cegos, já buscavam enchergar, já lutavam para enteder quem somos, para onde de onde. Falar da cegueira atual é mais uma tentativa de cegar-se inconscientemente. Explico. Temos muitas dúvidas e por conta delas nos consideramos cegos. No entanto, não compreendemos que são essas dúvidas, essas incertezas, esses medos, que nos despertam a lucidez, a luz. O livro de José Saramago, não vem, na minha opinião mostrar a cegueira de hoje, e sim de todos os tempo, por isso, a ligação com a sociedade sem regras e sem moral, como eramos nas cavernas. De qualquer forma, gostei bastante do post.

  3. nane_carey em 6 de janeiro de 2009, às 11:14.

    Esse filme é demais ;)

    visitado ;) bjs nane

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