A doçura que aparenta é só mais uma ferramenta
Publicado em 4 de março de 2009, às 09:37.
Artigo sobre Colunistas, Música.

A caminho de prestar um favor a minha mãe, estabelecer uma conexão entre ela e os conteúdos musicais da internet, desemboquei neste post. Navegando pela internet, buscando músicas da Vanessa da Mata, tropecei no site da Veja, encontrei Roberta Sá e descobri Gulin. Thaís Gulin. Um deleite.
Eu estava realmente inconformado com a banalidade das músicas que tinha ouvido até agora. Harmonias tradicionais, finais clichês, no esquema que mantém o front e troca o fundo, ou pouco mais. Isto é, ficam reforçando o óbvio da tonalidade. Vamos falar um pouquinho de música, pra ajudar.
(Se não quiser saber de teoria musical básica, pule esta parte).
Harmonia são sons simultâneos. Melodia são sons consecutivos. Na prática, isto é, uma flauta constrói melodias, uma nota por vez. Um piano pode produzir várias ao mesmo tempo, inclusive. Assim, constrói melodias e harmonias. Quando você canta, você está conduzindo uma melodia. Quando alguém diz: “toca um Dó maior”, esse alguém pede a tonalidade em que a harmonia será expressada.
Pois bem. O que vem a ser um dó maior? São três notas simultâneas: um Dó, um Mi e um Sol. Tem um livro bem interessante do Arnold Schoenberg chamado Harmonia, que evolui magistralmente sobre o tema, sendo considerado quase um tratado último sobre harmonia. Mas enfim, o fato interessante em um dó maior, citado no livro, e observado pela física, é que uma nota sozinha não toca somente sua freqüência, ela gera uma série de harmônicos. Os mais intensos estão nas quintas e terças (dó, ré, MI, fá, SOL, lá, si). Então um dó maior, na verdade, reforça uma tendência natural do som, por isso aparenta ser tão bem resolvido, sem tensões.
No entanto, com o passar do tempo e a evolução da música, as harmonias foram ficando complexas, e o que era dissonante (isto é, reforçavam partes não evidenciadas do som) e feio passou a ser aceitável, bonito, lindo até. No Jazz, por exemplo, é lei, explora-se eternamente a riqueza da dissonância.
Resumindo e aumentando, uma música óbvia é aquela que segue padrões consagrados de acordes, reforçando harmonias óbvias, monotonamente consonantes, complementadas por um ritmo quadrado e timbres consagrados.
Mas voltando…
Chegou a novidade aos meus ouvidos, inesperadamente. Thaís Gurlin lançou o CD “Thaís Gurlin”, que eu encontrei tropeçando enquanto navegava na internet…

- Arrigo Barnabé por Fernanda Serra Azul

Já adianto que não se pode esperar coisas óbvias de alguém que em seu primeiro CD puxa para Arrigo Barnabé (rico em dissonâncias). E coloca Tom Zé, rico em experimentações. E tem Chico Buarque. E traz um pente fino das pérolas do cancioneiro nacional ricas em boas letras e ótimos temas, mas deixadas de escanteio por gravadoras populistas. E traz excelentes instrumentistas pra gravação. Uma produção excelente. Escutar o disco é como saborear um novo prato, ou enxergar uma nova cor.

A construção das músicas eleva o tom e a beleza das letras. O arranjo arrepia em dissonâncias lindas, trançando os temas e compondo o clima. A interpretação, maravilhosa. Foram ao todo 3 anos de pesquisa e experimentação para cozinhar o disco “Thaís Gulin”. Nele a música brasileira é entrecortada, os estilos se convergem e público, em deleite, agradece.
Pra quem quiser conferir uma prévia do que se trata o CD: no MySpace ou na Last.fm.
Estou pagando pra ver o próximo show (acompanhe informações em sua comunidade).
Vale a pena.
Bruno Incáo
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