Como destruir uma ótima proposta? Pergunte aos organizadores da Virada Cultural 2009, bem como aos gestores do transporte público (SPtrans e Metrô), da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Companhia de Engenharia de Tráfego, limpeza urbana…
Os pessimistas já sabiam. Os otimistas (faço parte deste grupo) faziam contagem regressiva, apesar de todo histórico de problemas que o evento vem tendo nos últimos anos. Isso já havia sido dito ano passado…
Primeiro ponto: havia gente de mais para apresentações de menos. A Secretaria responderia que haviam mais de 800 atrações. Grosseiramente, se dividirmos o público estimado (4 milhões) pelo número de atrações, perceberemos que cada uma delas poderia ter 5 mil pessoas. Sim, um cálculo tosco, grosseiro, mas evidencia que:
*há pessoas demais por atração;
*existem atrações que concentram um número muito grande de pessoas.
E qual concentraria tanta gente? O palco principal. Por que raios insistir em palco principal?????? A circulação na região do centro era enorme e principalmente na área do tal palco principal. Havia gente ali para distribuir em mais 10 palcos pelo menos! Sem contar a dificuldade que era circular por ali. Sem falar que a organização resolveu colocar um guindaste que ocupava uma área enorme e atrapalhava ainda mais a passagem. Não precisa ser técnico para ter essa noção! É o tipo de erro grotesco que não acontece apenas em atividades gratuitas ou patrocinadas pelo governo (vide exemplo 1 e exemplo 2). E para complementar, o Secretário Municipal de Cultura diz:
“Nos impressiona como São Paulo tem fome de cultura, afirmou o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil. Os franceses que nos acompanham estão impressionados, pois não conhecem nada dessa dimensão, continuou o secretário, lembrando a comitiva francesa que segue as comemorações do Ano França-Brasil.” (do site oficial)
Claro que estão impressionados! Claro que São Paulo tem fome de Cultura! Quem tem misérias durante o ano todo tem que ter muita fome mesmo! A Virada Cultural deve ser um reflexo do que a cidade apresenta durante o ano e não ser praticamente a única oportunidade de participação em evento cultural que as pessoas têm. Quantos saraus são promovidos pela Secretaria em praças públicas durante o ano? Qual a articulação da Secretaria com as escolas?… A Virada deveria ser a coroação de tudo o que a cidade produz e oferece durante o ano. Por isso, as programações em centros culturais, como o SESC (e mesmo o Teatro Municipal), que fazem isso durante o ano, são tão boas.
Parece que as coisas são feitas de qualquer maneira mesmo. Basta chegar dois meses antes do evento, chamar alguns artistas, deixar centros culturais fazerem suas boas programações, organizar uma estrutura qualquer (banheiros, transporte etc) e temos um evento. Serão milhões que sairão às ruas, faz-se uma estimativa e está ótimo! O evento vira palco político e pronto, o sistema está abastecido.
E falando sobre “uma estrutura qualquer”, quem foi que disse para usar o transporte público? 4 milhões de pessoas circulavam e:
*o metrô operava abaixo de sua capacidade (a ponto de ter que fechar os portões da estação São Bento devido ao enorme número de pessoas esperando na plataforma);
*pouquíssimos ônibus circulando (era madrugada, mas os ônibus saiam lotados como em horário de pico, deixando muitas pessoas no ponto; outra questão era que os ônibus não percorriam a cidade inteira, seria para que a periferia continuasse na periferia?);
*a CET permitia tráfego onde multidões de pessoas passavam (sim, em pleno “palco principal”);
*não havia limpeza pública (o centro estava imundo, somando o fato da haver poucos banheiros químicos; sim, não existem banheiros públicos);
*pouco policiamento (os policiais estavam apenas em alguns pontos, o que permitia coisas absurdas acontecerem no meio de todos, como brigas dentro de estabelecimentos comerciais);
Enfim, a Secretaria Municipal de Cultura já deveria ter começado a organizar a Virada Cultural 2010 ontem, segunda-feira pós-evento. É básico dizer que o planejamento do evento deve ser feito de forma técnica, com objetivos bem delineados e ações almejadas em curto, médio e longo prazos, envolvendo questões técnicas (urbanísticas, turísticas…). O amadorismo só estraga a genialidade do evento e faz com que os pessimistas tenham inúmeras razões de não participar da virada.
Definitivamente, não quero passar para o lado dos pessimistas na próxima edição.
Olé
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