Virada Cultural 2009 aos trancos e barrancos

Publicado em 5 de maio de 2009, às 20:32.

Artigo sobre Festivais, Produção, Reflexão, Shows, Turismo.


Como destruir uma ótima proposta? Pergunte aos organizadores da Virada Cultural 2009, bem como aos gestores do transporte público (SPtrans e Metrô), da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Companhia de Engenharia de Tráfego, limpeza urbana

Os pessimistas já sabiam. Os otimistas (faço parte deste grupo) faziam contagem regressiva, apesar de todo histórico de problemas que o evento vem tendo nos últimos anos. Isso já havia sido dito ano passado

Primeiro ponto: havia gente de mais para apresentações de menos. A Secretaria responderia  que haviam mais de 800 atrações. Grosseiramente, se dividirmos o público estimado (4 milhões) pelo número de atrações, perceberemos que cada uma delas poderia ter 5 mil pessoas. Sim, um cálculo tosco, grosseiro, mas evidencia que:

*há pessoas demais por atração;
*existem atrações que concentram um número muito grande de pessoas.

E qual concentraria tanta gente? O palco principal. Por que raios insistir em palco principal?????? A circulação na região do centro era enorme e principalmente na área do tal palco principal. Havia gente ali para distribuir em mais 10 palcos pelo menos! Sem contar a dificuldade que era circular por ali. Sem falar que a organização resolveu colocar um guindaste que ocupava uma área enorme e atrapalhava ainda mais a passagem. Não precisa ser técnico para ter essa noção! É o tipo de erro grotesco que não acontece apenas em atividades gratuitas ou patrocinadas pelo governo (vide exemplo 1 e exemplo 2). E para complementar, o Secretário Municipal de Cultura diz:

Nos impressiona como São Paulo tem fome de cultura, afirmou o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil. Os franceses que nos acompanham estão impressionados, pois não conhecem nada dessa dimensão, continuou o secretário, lembrando a comitiva francesa que segue as comemorações do Ano França-Brasil.” (do site oficial)

Claro que estão impressionados! Claro que São Paulo tem fome de Cultura! Quem tem misérias durante o ano todo tem que ter muita fome mesmo! A Virada Cultural deve ser um reflexo do que a cidade apresenta durante o ano e não ser praticamente a única oportunidade de participação em evento cultural que as pessoas têm. Quantos saraus são promovidos pela Secretaria em praças públicas durante o ano? Qual a articulação da Secretaria com as escolas?… A Virada deveria ser a coroação de tudo o que a cidade produz e oferece durante o ano. Por isso, as programações em centros culturais, como o SESC (e mesmo o Teatro Municipal), que fazem isso durante o ano, são tão boas.

Parece que as coisas são feitas de qualquer maneira mesmo. Basta chegar dois meses antes do evento, chamar alguns artistas, deixar centros culturais fazerem suas boas programações, organizar uma estrutura qualquer (banheiros, transporte etc) e temos um evento. Serão milhões que sairão às ruas, faz-se uma estimativa e está ótimo! O evento vira palco político e pronto, o sistema está abastecido.

E falando sobre “uma estrutura qualquer”, quem foi que disse para usar o transporte público? 4 milhões de pessoas circulavam e:

*o metrô operava abaixo de sua capacidade (a ponto de ter que fechar os portões da estação São Bento devido ao enorme número de pessoas esperando na plataforma);

*pouquíssimos ônibus circulando (era madrugada, mas os ônibus saiam lotados como em horário de pico, deixando muitas pessoas no ponto; outra questão era que os ônibus não percorriam a cidade inteira, seria para que a periferia continuasse na periferia?);

*a CET permitia tráfego onde multidões de pessoas passavam (sim, em pleno “palco principal”);

*não havia limpeza pública (o centro estava imundo, somando o fato da haver poucos banheiros químicos; sim, não existem banheiros públicos);

*pouco policiamento (os policiais estavam apenas em alguns pontos, o que permitia coisas absurdas acontecerem no meio de todos, como brigas dentro de estabelecimentos comerciais);

Enfim, a Secretaria Municipal de Cultura já deveria ter começado a organizar a Virada Cultural 2010 ontem, segunda-feira pós-evento. É básico dizer que o planejamento do evento deve ser feito de forma técnica, com objetivos bem delineados e ações almejadas em curto, médio e longo prazos, envolvendo questões técnicas (urbanísticas, turísticas…). O amadorismo só estraga a genialidade do evento e faz com que os pessimistas tenham inúmeras razões de não participar da virada.

Definitivamente, não quero passar para o lado dos pessimistas na próxima edição.

Olé


Comentários

9 comentários para o artigo “Virada Cultural 2009 aos trancos e barrancos”

  1. Luiz Yassuda em 5 de maio de 2009, às 21:28.

    Eu passei para o lado dos pessimistas no ano passado, apesar de ter ido à edição deste ano. Ainda que eu estivesse circulando pelo centro, evitei ao máximo passar pelas regiões próximas aos palcos que tinham maior público (principal, na Av. São João; rock, na praça da República; samba-rock, na Av. Rio Branco). Acabei fazendo uma programação bem light, cujo ponto alto foram as duas horas no delicioso Café Girondino, em que era possível ignorar (o termo é este mesmo) um dos palcos a poucos metros de distância.

    Eu pergunto, caro Olé, se a sua opinião é realmente contrária aos grandes shows da Virada, estes que lotam e que criam números megalomaníacos para a prefeitura. Eu creio que estou, sim, contra eles. Lembro-me da primeira edição que foi muito mais focada em ter espetáculos de toda a sorte por 24 horas do que prover um grande espetáculo pelo mesmo período. O modelo, acredito, tinha que ser mais próximo daquele, imensamente descentralizado.

  2. Zeca Bral em 6 de maio de 2009, às 01:51.

    ótimo post. Infelizmente eu passei para o lado dos pessimistas nesta edição! Eles venceram. Logo eu estudante universitário de artes, de olho no futuro em, justamente, produção cultural. Mas o que dizer de uma estrutura tão capenga montada com a cifra reduzida de R$ 5mi, num evento q segundo o secretário da SPTuris diz movimentar R$ 100mi para a cidade? A redução de 30% ficou nítida na disposição do evento. Falei um pouco disso tb no meu blog, convido a quem quiser refletir um pouco mais sobre o q pontuei por lá.

    Importante gerarmos essa discussão. São Paulo, de fato, tem fome de cultura.

    Avante!
    Abracao,
    Zeca Bral

  3. Amanda em 6 de maio de 2009, às 09:05.

    Olá,

    Eu ainda não passei para o lado dos pessimistas. Curti muito a Virada, apesar dos problemas (escrevi um post no meu blog sobre o que vi). Não ignorei a falta de locais para jogarmos o lixo, a falta de água nos banheiros químicos e a comida péssima que estava sendo vendida a preços altíssimos!

    Mas, como já conhecia o evento de outros anos, resolvi não passar nem perto do palco principal e curtir atrações menos populares. Mesmo assim, vi muita gente! E só consegui ver bem algumas apresentações por pura sorte, já que as pessoas que estava bloqueando minha visão resolveram abandonar a apresentação logo no começo.

    Concordo que deve haver cultura o ano inteiro na cidade… Mas a Virada será sempre muvucada, justamente pelo fato de São Paulo ser muvucada! Não há como fazer um evento tranquilo nessa cidade…

    Os shows no Sesc têm seus ingressos esgotados. Shows gratuitos lotam os parques quando acontecem. E até mesmo show caros, em estádios lotam! Por isso, eu acredito que o buraco é muito mais em baixo…

    Abraços!

  4. interaubis em 6 de maio de 2009, às 09:10.

    Aqui na Av.São João nos arredores do palco os moradores no dia do evento foram barrados na última hora (eu por exemplo, estava voltando do supermercado) para que houvesse um “cadastramento” improvisado, feito por uma coitada com um papelzinho na mão.

    Pra que mobilizar antes a população, informar qual será o esquema de movimentação de público e dos moradores, envolver a comunidade, pedir desculpas pelo transtorno da montagem e desmontagem dos palcos (dia e noite antes e depois), agradecer a participação e a colaboração do moradores do Centro da cidade, pra que isso, né?

  5. Opinião / Virada Cultural 2009 « interessa? | blog de design e artes em 6 de maio de 2009, às 10:33.

    [...] Se esse texto não tiver ficado muito claro, clique aqui e leia a opinião do Vereida Estreita. Faço minhas, as palavras deles. [...]

  6. Fernanda em 6 de maio de 2009, às 15:47.

    Eu me rendi este ano. Para o lado dos que vão fazer sua própria virada cultural em 2010, distante de tudo isso. Também passei horas no Café Girondino. E nos botecos do Piano na Praça Dom Gaspar. Finito! Até desiti de fazer como todos os anos, publicar algo no meu blog. Desilusão maluca essa que me pega pelo pé.
    Parabéns pelo post.

  7. Olé em 6 de maio de 2009, às 23:32.

    Yayá, sou contra os grandes shows sim. Principalmente em espaços inadequados. Com a verba gasta em tal palco, poderiam ser criados vários outros menores.

    Preciso fazer um comentário sobre o palco próximo ao Café Girondino (no largo São Bento) era ao lado do mosteiro São Bento. Ano passado lá foi feita a balada Silent Disco, onde todos os participantes usavam fones de ouvido! Ou seja, era uma balada que não destoava com o fato de haver ali um mosteiro! Era genial! Mas este ano colocaram um show de break lá. Algumas pessoas acham que só porque é arte combina, igual aos modernistas que não acham que seus monumentos não conflitam com arte colonial por exemplo.

    Vocês enumeraram várias coisas que só comprovam a falta de planejamento. Sim, é um absurdo não haver contato decente com a comunidade local! Difícil encontrar alguém que não se incomode com tanta gente tomando de assalto seu espaço de vivência, alterando rotina e trazendo todas as interferências já citadas.

    O Possa já havia feito esta pergunta aqui sobre o quanto valia a pena fazer um evento deste porte e quanto benefício era trazido à população. O dinheiro movimentado vale toda essa pena?

    O pessoal de Publicidade entende isso que vou dizer: a idéia do evento é ótima, mas não adianta ter uma ótima idéia, se a execução for uma porcaria.

    Essa discussão tem que acontecer para que haja mudanças drásticas no planejamento do evento.

    Muito obrigado pelas contribuições. Referências e outras opiniões é tudo o que queremos!

    Abraços,

  8. Victor em 13 de maio de 2009, às 00:55.

    Olé, não sei se você lembra quando estávamos lá no meio do show da Maria Rita beirando o caos. Começamos a questionar essa história de ser um evento da iniciativa pública e, portanto, organizado com dinheiro publico.

    Eu sei que um evento que é patrocinado por organizações privadas fica sujeito a agradar grandes massas, e com isto o nível das apresentações e a liberdade artística pode ficar comprometida. Com o mínimo que eu entendo de publicidade, acho que nenhum marketeiro duvida da eficácia que a Virada Cultural tem, neste mesmo formato, em atingir um grande público. Acredito que a proposta de haverem patrocinadores privados seria bastante interessante para os próximos anos, para ambas partes, mantendo o tipo de apresentações.

    Para mim, como participante eu destaco a situação ridícula que se criou com o metrô República fechado. Estive na estação Anhangabau em um momento que beirou uma tragédia (sem Datenismos nesta frase). As pessoas não conseguiam sair do subsolo de onde desembarcavam pois estava muito cheio, e com muitas pessoas querendo entrar. Duas escadas descendo e uma subindo, somado aos trens que não paravam de chegar, levaram pessoas ao desmaio e o risco iminente de cair na linha.

    Uma coisa é fato: Com otimismo ou pessimismo, a Virada vai ter que se virar para ficar melhor.

  9. Além dos livros : Vereda Estreita em 11 de agosto de 2009, às 02:05.

    [...] Fllipinha e a FlipiZona são o mínimo que se espera de um bom evento, aquilo que a Virada Cultural de São Paulo se esquece por [...]

Deixe um comentário!






Fotos via Flickr Feed Flickr Vereda Estreita

Conecte-se à rede Vereda Estreita




Blogosfera Cultural

Agenda Cultural de SP - Eventos culturais da cidade
Animais Domésticos - Tudo tem significado
Autores e Livros - Pura Literatura
Batuque Brasileiro - O poder dos nossos tambores
Belas Coisas Simples - Outro conceito de beleza
Bibliotecário de Babel - Sobre os livros na estante
Birajiru! - Uma visão do Brasil de fora do país
da Brasiliana USP - "Os tupiniquins te saúdam!"
da Cosac Naify - "À altura de seus livros"
da FLIP - Festa Literária Internacional Paraty
da Cultura - À altura de seus vendedores
da Mona Dorf - Muitas letras e leituras
das Ruas - De onde tudo tudo se cria
do João - Jean não. João mesmo.
do Língua - Fala, Língua de Trapo!
do SambaPhoto - Da Terra onde canta o Sabiá
do Thales Guaracy - Escritor e jornalista
Brasil com Z - Jovens brasileiros no exterior
Brasil Encantado - Portal do folclore nacional
Cápsula da Cultura - Música de qualidade
Carimbó - O tambor tem que ser deitado no chão
Carronaval de Dionisios - T Oficina Uzyna Uzona
Catraca Livre - A Cultura descatracalizada
Cenas de Cinema - Cenas mil
Cine Cult - USP - Diálogo entre Psicanálise e AV
Cinéfilos J. Júnior - Apaixonados por cinema
Cinema de Rua - Microdocumentários urbanos
Cinema Lido - O cinema traduzido em palavras
Contos Ancestrais - Contos e crônicas de suspense
Contos da Várzea - Futebol na praia, no asfalto...
Controvérsia - Um espaço de debate
Cordel Atemporal - Lit. de cordel e cultura popular
Cosas Pajas - Um olhar do Peru sobre as artes
Cultura Grátis em São Paulo - Na faixa! (ou quase!)
Cultura Baiana - A essência da identidade baiana
Cultura Nordestina - A cultura popular nordestina
Da Literatura - Também sobre Literatura
De um universo paralelo - Não tão distante
Defender - Defesa Civil do Patrimônio Histórico
Digestivo Cultural - Jornalismo cultural
Educação Patrimonial - Pela defesa do Patrimônio
Entre la samba y el tango - Porteñas y paulistanas
eraOdito - Um bendito dum bom-dito!
Flickr Blog - Sobre ótimas fotos e fotógrafos reais
Hit na rede - Música por todos os lados
Idéias & Livros - Literatura e o mercado editorial
Incubadora Literária - Criação literária e criatividade
Indústrias Culturais - e Criativas
Isto não é um escritório - Anotações Culturais
Jornada Fotográfica - Saídas fotográficas por SP
Literatura popular em versos - Cordel brasileiro
Livros e Afins - Pelo prazer da leitura
Lugares e Viagens - Lugares para conhecer um dia
Maria Pretinha - Vivendo o “ritual da chegança”
Massaroca - Programa produzido pela Massa Real
Meacontecem - Fraude, pipa ou força?
MovieYou - Dissecando o Cinema
Mundo Livro - O forum dos livros
Música & Poesia - Música e poesia brasileira
Música da Boa - A MPB que quase não ouvimos
Nuestras Estorias - Muitas estórias
Objetos de Melancolia - Fotografia em mil palavras
O Caderno de Saramago - Blog do autor português
Odisséia Literária - Livros, literatura e mais
O Casulo - Literatura contemporânea
Outro Cine - Outro jeito de ver cinema
Paços da Cultura - Renascimento de experiências
Pensar Enlouquece - Pense nisso
PopUp! - Música e cultura pop
Reflexões sobre a Cultura Árabe - Um outro mundo
Recortes da FLIP - Blog quase oficial da FLIP
Samba de Raiz - Preservar é difundir o Samba
SÃO outros PAULOs - Cidades dentro da Cidade
Sentir - Menos pelo perfume que pela poesia
Seta Despedida - Impressões passadas
Som & Imagem - Notícias do mundo da música
Teia Cultural - A cultura na rede
Todoprosa - Blog do escritor Sérgio Rodrigues
Toponímia - O encanto dos nomes
úúúú!!! - Outros mares daqui
Urbanistas/SP - Blog sobre a cidade de São Paulo
Verdes Trigos - Fomentando o hábito de leitura
Vermute com Amendoim - Valor à música brasileira
Viajante Consciente - Um estilo de vida