Produtos não perecíveis
Publicado em 21 de maio de 2009, às 10:24.
Artigo sobre Colunistas, Exposições, Reflexão.

Neste sábado fui à exposição do artista brasileiro Vik Muniz que está acontecendo no MASP, e tenho algumas observações a tecer sobre. Antes de ir, me muni de algumas críticas feitas por pessoas entendidas no assunto, para saber o que estavam pensando sobre o artista e a exposição. Sabe que eu não tive a melhor impressão do mundo? Críticos metendo o pau no cara, principalmente referindo-se à arte dele como comercial. Confesso que adquiri um dilema. Para mim, outras formas de expressão artística são mais fáceis de identificar como sendo um trabalho comercial ou conceitual, pensado ou vendido, construído ou parido. Por exemplo, na música. É gritante a diferença de um trabalho do Harmonia do Samba, para um do Paulinho da Viola. No teatro, por exemplo, como citei anteriormente, do Teatro Oficina para as peças que acontecem no teatro da Gazeta. Que dirá, então, dos livros? Mas… e nas artes plásticas?
Pode até ser uma ignorância enorme da minha parte fazer uma comparação destas, mas, a partir deste raciocínio, poderíamos considerar algumas das mais famosas obras renascentistas como comerciais, afinal muitos quadros pintados por grandes mestres da pintura foram feitos sob encomenda de famílias aristocratas da época. E não é, por sua vez, comercial? O mérito destes pintores fica esvaziado em algum momento por terem realizado obras para pagar o pão de cada dia? Acho que é uma reflexão pertinente. O Brasil tem atualmente três grandes nomes de artistas plásticos que figuram em todo o mundo como ícones de uma contemporaneidade artística criativa: Romero Britto, Beatriz Milhazes e Vik Muniz. Curiosamente, todos eles são acusados pelos mais puritanos de fazerem arte comercial.
Quando eu estudei Artes, da 5ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, recebi alguns ensinamentos de uma professora muito interessante. Profª Juce. Tentava insistentemente levar para nós todo o conceito de arte que estava embutido, desprovendo-nos de crítica no sentido negativo da palavra. Bem me lembro certa vez que nos trouxe a uma Bienal de Artes de São Paulo, e apresentou algumas instalações-conceito. Muitos – inclusive eu – torcemos o nariz para obras que não se enquadravam naquele limiar de aceitação que estabelecemos para as artes plásticas, baseados em experiências prévias claramente impressionistas. Ela buscava inserir aquela obra dentro da nossa margem crítica para aprendermos, no mínimo, a respeitar o trabalho daquele artista. Desta forma, aprendi na prática a respeitar qualquer manifestação artística que me fosse sugerida, buscando sempre sua essência como forma de justificar sua existência.
Assim que entrei na exposição de Vik Muniz, já com alguns pré-conceitos formados como supra citei, e, tão logo li o release da exposição e do pensamento do artista, quebrei imediatamente todas as barreiras que foram criadas. Entendi que poderia esperar mais do que arte comercial daquele cara. É óbvio que às vezes ele esbarra mesmo no comercial. Mas acredito que isso não faz desmerecer tudo aquilo que ele faz de bom, e seria um reducionismo enorme e injusto. São as obras mais sinestésicas e efêmeras que eu já vi na minha vida. Vik faz releituras de grandes obras utilizando-se de materiais perecíveis, como calda de chocolate, geleia e pasta de amendoim, por exemplo. Não é possível passar por aquela exposição e não se sentir tocado por nada. Eu, por exemplo, fiquei extremamente comovido pela série que ele fez com açúcar, reproduzindo fotos de meninos que conheceu em uma viagem ao Caribe, e tinham seu destino traçado inevitavelmente para a colheita de cana-de-açúcar. É de uma ironia e perspicácia muito fina a sequência apresentada. Ou, ainda, a forma como acontece a comunicação do material utilizado com a obra, ou a incessante experimentação de novas técnicas. Talvez, ainda, como a percepção do material e da obra se desdobre em mais de uma vertente conforme a distância que se aprecia. Aliás, vale a dica de ir à exposição durante a semana, pois costuma encher nos finais de semana, o que impede que cada um experimente tranquilamente diferentes distanciamentos das obras, e suas sensações.

Concluo garantindo: Não perca esta exposição. Comercial ou não, Vik Muniz justifica seu reconhecimento internacional pela genialidade contida em pequenos detalhes. É preciso ter olhos de ver.
Victor Gouvea
Realização e coordenação: Aprazível Edições e Arte – Leonel Kaz e Nigge Loddi
Patrocínio: Bradesco Seguros e Previdência
Direção de montagem: Emílio Kalil
Programação visual: Jair de Souza
Vídeos: Fabio Ghivelder
Montagem: Arquiprom / Fernando Arouca
Exposição: de 24 de abril a 12 de julho de 2009
Horário de visitação: terça a domingo e feriados, das 11h às 18h; às quintas, das 11h às 20h.
Ingresso:
Inteira – R$ 15,00
Estudantes – R$ 7,00
Menores de 10 anos e maiores de 60 anos – Gratuito
Às terças-feiras a entrada é gratuita
Local: Museu de Arte de São Paulo – MASP
Endereço: Av. Paulista, 1578
Telefone: (11) 3251 5644
Classificação etária: livre
Estacionamento pago no local
Acesso a deficientes
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