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Além dos livros



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A FLIP seduz desde o primeiro contato. A proposta por si só encanta: um acontecimento literário em uma cidade histórica. Já basta. Qualquer pessoa que goste de Literatura se empolga. E se esse for o mais expressivo evento literário no Brasil, acompanhá-lo se torna obrigatório, mesmo que de longe. Então, o sujeito começa no fim do ano anterior a acompanhar as notícias. Homenageado, convidados, novidades, tudo. É até difícil acreditar que isto possa acontecer num país onde ler está longe de ser prazer para a maioria da população.

Por mais que ela também tenha um foco na promoção e venda de livros (dos autores que ali estão), os horizontes dos leitores acabam abrindo mais. Os clássicos são vistos na escola (e muito mal), já os contemporâneos nem sempre. Como descobrir os olhares de autores chineses sobre o gigante asiático; ou conhecer a irlandesa que teve seus livros banidos de seu país; ou assistir ao primeiro encontro público depois do rompimento amoroso de dois artistas franceses…? São coisas que infelizmente poderiam ser curtidas muitos anos depois de acontecerem, quando já virarem clássicas. Guardadas as devidas proporções, é como viver em 1922 e perder a Semana de Arte Moderna. Àquela época seria perdoável, mas chega a ser inadmissível com a violenta comunicação destes tempos não saber o que está acontecendo (pelo menos!).

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Da mesma maneira, seria um crime fazer um evento destes sem o menor envolvimento com a comunidade, principalmente sem os pequenos. Apropriar-se da cidade por alguns dias, discutir cultura e não acrescentar nada? Por mais dinheiro que os turistas possam trazer, ainda sim seria hediondo. Por isso, a Flipinha, apesar de não ter os holofotes principais, é parte fundamental do evento. O trabalho acontece durante o ano todo com as crianças da cidade de Paraty e culminam na Flip. As crianças são incentivadas a ler, os professores participam de oficinas para trabalhar melhor os autores em sala de aula e há diálogo com outras artes.

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E como é natural que as crianças cresçam e não se interessem mais pelo conteúdo infantil, esse ano foi criado um espaço para os adolescentes aproximarem-se (e manterem-se próximos) da Literatura: a FlipZona. Assim como a Flipinha, ela tem programação independente, porém abordando assuntos que chamem mais atenção deles: mídias digitais, produção/criação de áudio e vídeo, fotografia, jornalismo, exibição de filmes enfim. E está programada para também ser um projeto continuado, que aconteça durante todo o ano envolvendo as escolas de Paraty.

A Fllipinha e a FlipiZona são o mínimo que se espera de um bom evento, aquilo que a Virada Cultural de São Paulo se esquece por exemplo.

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E como nem tudo são flores, os adolescentes continuarão crescendo e se tornarão adultos. O que restará para eles? A catraca, ora! Mesmo sendo patrocinado pelo conglomerado Itaú Unibanco (gigantesca instituição financeira; lucrou 2 bilhões só no primeiro trimestre de 2009), o evento é pouco gratuito. Há duas tendas: uma menor (tenda dos autores, R$30), onde ocorrem as chamadas “mesas”, que são as apresentações dos autores (é fechada) e uma maior (tenda do telão, R$10), onde há telões em que os pagantes podem entrar, sentar e assistir com um conforto mínimo. Para quem não paga (às vezes porque os ingressos acabaram após duas horas da abertura da venda pela internet), tem que se contentar com as beiradas da Tenda do Telão e torcer para não chover. Este é o maior problema do evento: o acesso. Sim, o Ministério da Cultura apóia a FLIP por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, porém falta ainda “descatracalizar” a festa. Há muitos espaços (internos e externos) na cidade que podem receber telões, democratizando um pouco mais.

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Já que a parte de sugestões começou, faltam saraus, mesas menores de discussão onde o público possa participar (principalmente sobre o homenageado), exposições, música, teatro… E por outro lado, o número de pessoas já é bastante grande. Talvez fosse a hora de pensar em mudar a data, pois os fins de semana do mês de julho têm fluxos maiores devido às férias escolares. Ainda há muito trabalho a ser feito, mas a organização parece estar na trilha certa.

A energia que a cidade tem durante a festa é ótima. Inegável. As pessoas que se encontra lá são muito interessantes. Mesas são importantes, mas não tudo. Se elas fossem tão fundamentais, poderíamos ficar em casa e assistir tudo via internet. Quando for programar a sua Flip, escolha algumas mesas, veja muitos eventos da OFF Flip, separe tempo para sentar e conversar, tire fotos, encontre e conheça pessoas.

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Texto gigante. E não deve ser o último sobre a FLIP.

Olé

Leia também:

  1. Por que Paraty?
  2. Maracatu na FLIP 2009
  3. Encontro ingênuo
  4. Quem são os forasteiros?
  5. Música na igreja – FLIP 2009

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