Vai, vai, vai começar a brincadeira!

Publicado em 15 de outubro de 2009, às 15:34.

Artigo sobre Cultura Popular/Folclore, Patrimônio, Turismo.


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A Peruada seria outro carnaval fora de época? Mais ou menos. Mais porque tem pessoas bêbadas percorrendo um circuito atrás de um trio elétrico. Menos porque é sempre um protesto contra a conjuntura política do momento. Basicamente, uma grande e tradicional festa organizada pelo Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco da USP, cujo cenário sempre são as ruas do centro da cidade de São Paulo.

Tradicional sim. Há registros fotográficos da década de 30! Seus primórdios parecem estar no ritual de libertação dos calouros, que após o “calvário” passavam a ser “franciscanos” de verdade. Então, o nome pode ter vindo deste ato de embebedar os novatos e perambular com eles pelas ruas, o que seria parecido com o “hábito caboclo de dar pinga aos perus, deixando-os tontos antes de sacrificá-los”.

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Outra possibilidade é que o nome tenha se firmado em 1948, pois alguns alunos (entre eles o falecido Deputado Rogê Ferreira, então presidente do XI de Agosto - segundo o artigo de Maria Sabino, publicado pela OAB-SP) furtaram perus premiados (que pertenciam ao professor Mário Mazagão) e fizeram um banquete. E fizeram questão de convidar o dono das aves para saboreá-las. Isso rendeu no editorial do jornal O Estado de São Paulo o artigo: “Estudantada ou vandalismo?”

Talvez este episódio tenha sido o mais lembrado pela audácia de convidar o próprio dono e pelo objeto do furto ser peru. Porém, há relatos sobre estes furtos de animais, que eram comuns “para ´homenagear´ a figura do ladrão”, grande inspirador do estudo do Direito. Por exemplo, em 1945, o animal da vez foi um corvo e o destinatário, Getúlio Vargas.

Peruada de 2006. Foto: João Clara. Jornal O Globo.
Peruada de 2006. Foto: João Clara. Jornal O Globo.


Todos os anos, alunos da USP e de outras faculdades e universidades se fantasiam e dão vida para este grande bem imaterial da cidade. Uma simples sexta-feira do mês de outubro (sim, em horário comercial) pára e é uma grande mistura de gente de todo o tipo: alunos, comerciantes, mendigos, playboys, malucos, office-boys, camelôs, alienados, engajados.

Por Sérgio Novaes.
A lenda “Vitão” à esquerda e o Largo de São Francisco durante a Peruada. Foto: Sérgio Novaes.

O momento mais simbólico é a parada em frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo. Aqui, o som também para e começa o desabafo direto. Sempre achei os discursos muito fracos: pouco embasamento, faltam umas músicas de protesto e idéias desorganizadas, que brotam espontaneamente na cabeça daquele que segura o microfone. Pode ser interpretado como o vizinho bêbado vindo reclamar de muitas coisas e que talvez não mereça a mínima atenção. E isso acaba sendo ruim, afinal esse é grande o diferencial da Peruada.

Faltam também pessoas que saibam cantar o Hino da Peruada. Uma só saber, não dá. Se ela fica sem voz, como já aconteceu, fica ridículo. Ao final deste parágrafo, o vídeo para aqueles que quiserem decorá-la. Antes, acho por bem dizer que é uma paródia da música “O Circo” e criada por Duda (Sanfran-USP), com participação de Tropeço (Turismo/ECA-USP), ela ganhou fama através dos jogadores do time de Rugby da Sanfran que “cantavam muito a música”, assim como o próprio Duda conta no começo do vídeo abaixo:

Letra:

Vai, vai, vai começar a brincadeira!
Tem cerveja de graça* a tarde inteira!
Vem soltar a lascívia acumulada!
Vai, vai, vai começar a Peruada!

Bebe, bebe, vagabundo,
que é melhor não estar desperto,
pra se a velha chagar junto,
enfrentar de peito aberto.
Pois no meio da folia,
meio-dia, céu aberto,
uma neta que protesta
vitupera sua nona,
que veio só dar carona
e resolveu ficar na festa.

Refrão

Quem tem medo de dentista,
ou vê sangue e dá um salto,
tem chilique em lugar alto,
teme sapo de brinquedo,
em outubro vai ter medo,
no dia da Peruada,
pois o centro é infestado
de canhão, de bruxa e draga.
Tem até mulher barbada
neste circo disfarçado!

Refrão

Os vapores da cachaça
fazem mudar todo mundo.
O careta é maconheiro
e o nerd é vagabundo.
O juiz é sem juizo,
o alegre é moribundo
Mas não vale esse brocardo
pra quem joga do outro lado.
O Vitão lançou o grito
e não deixou de ser viado.

Refrão

De terno, gravata e meia,
franciscano quer a morte.
Ouve a turba, titubeia,
o extinto é mais forte.
Bem na hora do batente,
o estagiário some.
Seu chefe fica valente,
mas por dentro se consome.
Noutro tempo inconseqüente,
fora um ébrio de renome.

Refrão

Foi beijada a velha nona,
foi beijada a bailarina.
É beijada toda hora,
a safada da Marina.
Todo mundo se devora,
Pierrot e Colombina.
Quem zerou até agora,
mesmo assim não desanima.
Porque a festa só termina
quando o dia for embora.

Vai, vai, vai terminar a brincadeira!
Que a cerveja rolou a tarde inteira.
Morre o sol, faz-se sombra nas arcadas.
Vai, vai, vai terminar a Peruada!

*Antigamente a cerveja era de graça para os alunos. Quando o Centro Acadêmcio resolveu cobrar, mudaram o refrão para “gelada” (invés de “de graça”).

Em 2009, o mote é:

“Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! E o palhaço quem é? É o povo
brasileiro, que entre imposto, taxa e penhor, sustenta, do Senador ao
Governador, mais de uma família inteira.

Meu peru, pobre coitado, só quer deixar o seu recado, e pede um pouco de
vossa atenção para, nas ruas de São Paulo, ensinar sua lição; Mas, coitado, é
julgado, dito culpado, por corrupção.

Aqui não tem ato secreto, é tudo mostrado e explicitado, pelo meu peru
indiscreto. Não há grampo, escuta ou editorial, gripe suína ou outro
mal, que impeça o peru de pular seu carnaval. Com os alunos da Velha
Academia há mais de um século comanda sua folia. Rir para corrigir os
costumes, eis o lema de sua alegria!

Mas agora aparecem com uma série de acusações, dizem que têm provas:
várias gravações. Mas para quem já viu ambulância sanguessuga, anões
do orçamento, falso pregador, o que tem demais um cargo pro meu
parente do interior?

E NEM assim ele se dá por vencido, meu peru agora é olímpico. Nessa
manifestação político-etilico-circence ele sabe que é o rei. Afinal, pro meu
peru não existe lei, ele é parente do Sarney
.” (via opportune-tempore)

Deixando as pequena críticas de lado, ela é imperdível!

Ainda dá tempo de improvisar uma fantasia e cair na folia. E lembre-se: quando você for chefe, perdoe eventuais faltas de seus estagiários, em certa sexta-feira do mês de outubro.

Boa Peruada!

Olé

PERUADA (Concentração):
SEXTA 16/08 às 9h30 da manhã
Informações no CA XI de Agosto: 3111-4082 / 3034-5496

Referências sobre a Peruada e o XI de Agosto no livro:

Livro: A Heróica Pancada - Centro Acadêmico Xi de Agosto: 100 Anos de Lutas. De Cassio Schubsky (org.).

Consulte também os sites:
Eu tenho uma amiga
Migalhas
XI de Agosro


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