Amostra de um Cinema: Os Filmes
Publicado em 14 de novembro de 2009, às 21:43. | Deixe um comentário!
Artigo sobre Cinema, Colunistas.
Na segunda parte deste post sobre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, deixo minhas impressões pessoais sobre os filmes que assisti, dos quais alguns já estão em cartaz. Lembro que são opiniões sensoriais experienciadas por mim, intransferíveis e intangíveis. Portanto, não devem ser consideradas como críticas, mas sugestões e relatos sobre os filmes que assisti, e recomendo como um mero espectador, com toda a subjetividade possível inerente aos comentários.
Aproveito para deixar este espaço aberto aos leitores que discordarem da minha visão sobre as películas, para que sejam incitadas discussões acerca das obras abaixo comentadas.
(500) DIAS COM ELA [(500) days of Summer]
EUA, 2009 – Marc Webb
É uma delícia. Para se assistir acompanhado com sérios riscos de ser acometido por uma paixão arrebatadora. É leve, têm ótimas sacadas, referências indie, desenvolvimento não linear – que deixa a história muito mais interessante – e uma estética para ser saboreada (de preferência a dois). A história de um não amor que tem data pra acabar (como diz o próprio título), mas ganha seu público por ser simples e bem feito.
(trailer)
ACONTECEU EM WOODSTOCK [Taking Woodstock]
EUA, 2009 – Ang Lee
Filme que foi feito para ser gostado. Não é nenhum clássico instantâneo, mas sem dúvida alguma cumpre rigorosamente o que se propõe: divertir. Causa um arrependimento em seus espectadores por não poderem ter comparecido ao famoso Festival Hippie que marcou uma geração. Os atores estão impecáveis – sem exceção – e a fotografia aparece surpreendentemente bela. Um filme que vale a pena, e conta até com alguns tons de genialidade de Ang Lee, acompanhando em seu começo, meio e fim a execução do festival de música mais famoso do mundo, focando na história de vida de um personagem, que foi mudada com o desenvolver do evento. Assista.
(trailer)
ALÔ, ALÔ, TEREZINHA [Alô, Alô, Terezinha]
Brasil, 2009 – Nelson Hoineff
Uma verdadeira perda de tempo. Tenta alavancar o apresentador Abelardo Barbosa – o famoso Chacrinha – a um posto que ele não merece estar: o de gênio da televisão brasileira. É irritante, cansativo e deprimente. É a tentativa frustrada de trazer elementos do gosto popular a um nível elevado de aceitação cultural. Conta com vídeos da época em péssimo estado, o que o torna ainda pior. Não é divertido, não é bem montado, não é inteligente. Não mostra a que veio.
(trailer)
A VIDA EM BLOCO [Bloques]
Venezuela, 2008 – Alfredo Hueck e Carlos Caridad
O filme Venezuelano não pode ser considerado um destaque. Não tem nada de espetacular nas duas histórias dirigidas por diferentes diretores, mas é interessante. Um filme pra passar a tarde quando não se tem nada pra fazer. Nenhuma grande surpresa, nenhuma grande decepção. Debate a velha temática de que a vida na metrópole às vezes não deixa perceber que vivemos tão perto e ao mesmo tempo tão longe uns dos outros. Morno.
(trailer)
COLIN [Colin]
Reino Unido, 2009 – Marc Price
Este filme foi bastante comentado e teve salas cheias nas exibições da Mostra. Fui assistir com uma expectativa mediana, já que sabia que era uma produção de baixo custo. Contudo, já vi muitas produções de baixo custo muito bem feitas e esta, lhes digo, não é uma delas. O roteiro é fraco demais, e deveria certamente se limitar a um curta metragem. O filme se arrasta por mais de 90 minutos como os zumbis que o protagonizam. A grande revolução que “Colin” propõe é contar a mesma história de uma epidemia, só que na visão do zumbi, e não do mocinho. Não acho tão genial assim a ponto de compensar cenas toscas, ridicularizadas justamente pela falta de aporte financeiro. É bastante despropositado e, pra mim, um péssimo resultado para o investimento de 129 dólares.
(trailer)
DEIXA ELA ENTRAR [Låt Den Rätte Komma In]
Suécia, 2009 – Tomas Alfredson
O filme, que já figurava nos telões da capital antes mesmo da Mostra acontecer, vale o investimento. Este sim conta a mesma história – a dos vampiros – de um jeito diferente. Além da fotografia linda que Alfredson entrega, o enredo envolve, alternando entre tensões e alegrias, descobertas e constatações, decepções e sinceridades. A atuação dos jovens atores suecos chama a atenção, especialmente seu protagonista, um garoto andrógeno que é atormentado por colegas de escola e permanece numa vida solitária e tímida. Trama deliciosa, fotografia linda e atuações simplistas - mas bem feitas – fazem deste um filme que deve ser assistido.
(trailer)
ERVAS DANINHAS [Les Herbes Folles]
França, 2009 – Alain Resnais
Resnais volta mais Resnais do que nunca. Em cartaz há dois anos com “Medo Privados em Lugares Públicos”, o diretor octogenário entrega no novo filme boa parte do seu jeito de lidar com conflitos psicológicos e montanhas-russas sentimentais. Em alguns momentos se torna um pouco cansativo, mas nunca deixa de ser emocionante e verdadeiro. Tem cara de clássico francês, tem jeito de clássico francês, tem atores clássicos franceses, música francesa, fotografia francesa e olhar de um diretor extremamente francês, tornando-se, por conseqüência, um verdadeiro clássico francês.
(trailer)
O SOLISTA [The Soloist]
Reino Unido, EUA e França, 2009 – Joe Wright
O diretor de “Orgulho e Preconceito” extraiu o máximo de Jamie Foxx. O ator/comediante/rapper considera este o grande papel de sua vida, encarnando o esquizofrênico músico que vive nas ruas de Los Angeles. Robert Downey Jr. fica em segundo plano, mas seu personagem tem uma grande importância ao tentar trazer o tempo todo este gênio esquecido para a realidade. Mas quem disse que estar livre dos problemas psiquiátricos é o ideal? Confronta seus próprios dilemas. O filme ganhou meu carinho, fã incondicional de música, pela forma tratando o universo musical como sendo um sublime ato de execução e apreciação, seja através da cabeça de um doente, seja através de uma mente contestavelmente sã. Delicioso, apesar de pecar no exagero aos temas sociais.
(trailer)
RICKY [Ricky]
França, 2009 – François Ozon
O filme tenta, mas não consegue. Ozon, que tem uma filmografia de respeito, causa no público uma decepção natural, já que se espera muito de diretores consagrados, como ele. É um conto, e assim deve ser encarado para que se torne palatável. Nele, Fraçois Ozon se reinventa, fala de coisas que são paradoxais a temáticas abordadas anteriormente, prega a união da instituição familiar como salvação, e deixa um enorme ponto de interrogação na cabeça dos espectadores, além de atuações confusas e estética discutível. Vale assistir por dois motivos: Pra ter do que falar depois com amigos cinéfilos, e a oportunidade de criticar um filme do Ozon. Ah, e claro, se você gostar de perguntas sem respostas.
(trailer)
Victor Gouvêa
Amostra de um Cinema
Publicado em 13 de novembro de 2009, às 07:22. | Deixe um comentário!
Artigo sobre Cinema, Colunistas, Produção.
Hueck y Caridad, Ang Lee, Hoineff, Price, Alfredson, Resnais, Wright, Ozon e Webb. Foi tudo o que eu consegui assistir da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A programação sempre causa reações diversas em seu ávido público. Eu, por exemplo, entro em estado de ansiedade extrema quando tenho em mãos o schedule de datas e horários dos filmes. Sei que não vai ser possível assistir a todos que gostaria e inevitavelmente me vejo acometido pela dúvida: aproveito para assistir os mais comentados – e que provavelmente entrarão no circuito comercial mais cedo ou mais tarde -, ou arrisco assistir produções menos prestigiadas que possivelmente tenham na Mostra a oportunidade única de serem exibidas?
Por fim, acabo sempre optando pelo possível. Assisto aos filmes que encaixem melhor na minha disponibilidade – que se desdobra em tempos de Mostra -, incluindo alguns prestigiados e outros menos conhecidos. Deixo, com um aperto no peito, muitos de fora, na esperança de encontrar, em poucos meses, seus cartazes expostos nos cinemas da Paulista.
Em uma tarde qualquer, estava no Conjunto Nacional quando fui pego de surpresa – como todos os que ali estavam – por um senhor que gritava insistentemente contra os preços abusivos dos filmes. Não concordo totalmente, apesar de achar que os ingressos poderiam ser mais baratos, já que o evento conta com muitos apoios e patrocínios de peso. Sabemos que é muito custoso o transporte de películas e uma infra-estrutura megalômana, como a que seus organizadores proporcionaram. Os preços poderiam ser mais baixos, mas definitivamente não podem ser considerados abusivos. Talvez tenha sido um protesto impensado, sem calcular, mesmo que superficialmente, os custos astronômicos de um evento deste porte.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou a sua 33ª edição com um desafio: se reinventar. Antigamente, como foi destacado em um artigo da Folha de São Paulo, a Mostra tinha uma função quase bandeirante, trazendo – com muito suor – produções alternativas para o cenário cultural brasileiro, e vivenciando verdadeiras cruzadas para exibir filmes que dificilmente entrariam no circuito comercial. Apenas os grandes sucessos da Mostra chegavam às salas de cinema para o grande público. Hoje já não possui mais este viés. Uma parte significativa das produções apresentadas fatalmente entrará em exibição nas inúmeras salas da capital paulista, que tem como seu fiel público alguns apreciadores exigentes da sétima arte.
Mas há que se ponderar: a Mostra não perdeu sua importância. Assim como anos atrás revelava diretores que hoje são consagrados, traz à tona nomes não muito conhecidos, mas com carreiras promissoras, que provavelmente serão os gênios de amanhã. Tem a missão de revelar cuidadosamente algumas obras que figurarão nas listas de clássicos do futuro, e que no presente já disputam público, mídia, crítica e salas de cinema com monstros da película. Além disso, provoca uma deliciosa atmosfera na cidade, lembrando o público a todo instante que um marco da cultura filmográfica está se desenrolando, pela 33ª vez. E que, pelo bem do saber sinestésico que é o cinema, encontre solo fértil para muitas outras edições.
Victor Gouvêa

