Amostra de um Cinema
Publicado em 13 de novembro de 2009, às 07:22.
Artigo sobre Cinema, Colunistas, Festivais, Produção.
Hueck y Caridad, Ang Lee, Hoineff, Price, Alfredson, Resnais, Wright, Ozon e Webb. Foi tudo o que eu consegui assistir da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A programação sempre causa reações diversas em seu ávido público. Eu, por exemplo, entro em estado de ansiedade extrema quando tenho em mãos o schedule de datas e horários dos filmes. Sei que não vai ser possível assistir a todos que gostaria e inevitavelmente me vejo acometido pela dúvida: aproveito para assistir os mais comentados – e que provavelmente entrarão no circuito comercial mais cedo ou mais tarde -, ou arrisco assistir produções menos prestigiadas que possivelmente tenham na Mostra a oportunidade única de serem exibidas?
Por fim, acabo sempre optando pelo possível. Assisto aos filmes que encaixem melhor na minha disponibilidade – que se desdobra em tempos de Mostra -, incluindo alguns prestigiados e outros menos conhecidos. Deixo, com um aperto no peito, muitos de fora, na esperança de encontrar, em poucos meses, seus cartazes expostos nos cinemas da Paulista.
Em uma tarde qualquer, estava no Conjunto Nacional quando fui pego de surpresa – como todos os que ali estavam – por um senhor que gritava insistentemente contra os preços abusivos dos filmes. Não concordo totalmente, apesar de achar que os ingressos poderiam ser mais baratos, já que o evento conta com muitos apoios e patrocínios de peso. Sabemos que é muito custoso o transporte de películas e uma infra-estrutura megalômana, como a que seus organizadores proporcionaram. Os preços poderiam ser mais baixos, mas definitivamente não podem ser considerados abusivos. Talvez tenha sido um protesto impensado, sem calcular, mesmo que superficialmente, os custos astronômicos de um evento deste porte.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou a sua 33ª edição com um desafio: se reinventar. Antigamente, como foi destacado em um artigo da Folha de São Paulo, a Mostra tinha uma função quase bandeirante, trazendo – com muito suor – produções alternativas para o cenário cultural brasileiro, e vivenciando verdadeiras cruzadas para exibir filmes que dificilmente entrariam no circuito comercial. Apenas os grandes sucessos da Mostra chegavam às salas de cinema para o grande público. Hoje já não possui mais este viés. Uma parte significativa das produções apresentadas fatalmente entrará em exibição nas inúmeras salas da capital paulista, que tem como seu fiel público alguns apreciadores exigentes da sétima arte.
Mas há que se ponderar: a Mostra não perdeu sua importância. Assim como anos atrás revelava diretores que hoje são consagrados, traz à tona nomes não muito conhecidos, mas com carreiras promissoras, que provavelmente serão os gênios de amanhã. Tem a missão de revelar cuidadosamente algumas obras que figurarão nas listas de clássicos do futuro, e que no presente já disputam público, mídia, crítica e salas de cinema com monstros da película. Além disso, provoca uma deliciosa atmosfera na cidade, lembrando o público a todo instante que um marco da cultura filmográfica está se desenrolando, pela 33ª vez. E que, pelo bem do saber sinestésico que é o cinema, encontre solo fértil para muitas outras edições.
Victor Gouvêa
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