Mais um! Mais um!

Publicado em 1 de dezembro de 2009, às 02:20.

Artigo sobre Cinema, Música, Reflexão.


Como fazer sete anos de filmagens virarem um documentário de quase duas horas? Entre a Luz e a Sombra é a resposta de Luciana Burlamaqui para esta questão. E não é qualquer resposta. É uma resposta em forma de muitas perguntas. Trabalho tão profundo que está ao lado de outros grandes do cinema nacional, como Cidade de Deus, Ônibus 174, Estação Carandiru e Tropa de Elite, que tratam da mesma temática e mostram a urgência da reflexão que negamos a fazer todos os dias.

Há três histórias entrelaçadas que conduzem o enredo: a de Sophia Bisilliat, a da dupla de rap 509-E e a do juiz Octávio de Barros Filho.

Sophia é atriz e quis levar arte aos detentos do Carandiru. Em vinte anos de trabalho, criou o projeto “Talentos Aprisionados”, o qual tentava dar alguma luz para destacados artistas da cadeia. Assim, ela conhece a promissora dupla Dexter e Afro-X. Conseguiu a gravação de um CD e a autorização para que eles pudessem fazer shows de divulgação fora da penitenciária. Após  muitas saídas, um convite para um debate uma das emissoras mais vistas no Brasil seria uma grande oportunidade para mostrar suas idéias, sua recuperação, seu talento. Chega o momento chave do filme: a aparição no programa Altas Horas, da TV Globo. Seria debatendo a pena de morte. A discussão rumou para a pena de morte não-oficial, aquela que acontece por aí, nas ruas, nas sombras, feita por quem tem licença para matar. O adversário do debate era ninguém menos que o deputado estadual Conte Lopes, que em 98 foi o segundo deputado mais votado e em 2006 foi reeleito com 207 mil votos paulistas. O clima esquentou tanto que a conversa teve de ser interrompida. Coincidência ou não, após isso a dupla passou a ter uma dificuldade monstruosa para sair da cadeia. E o gênio e juiz que acredita na reabilitação, começa a ser colocado de lado, perde força e também fica às escuras.

509-E: Afro-X e Dexter. (Foto: Divulgação)

Por quê? O que querem esconder? Que há salvação. A idéia a passar: quem comete um crime nunca mais será o mesmo; não há regeneração. A escola formadora deste tipo de visão chama-se ditadura. Parece clichê, mas basta olhar a biografia do deputado e ver em quais anos ele cursou a academia de polícia. Ele é uma peça formada pelo “sistema” para manter tudo na mais santa ordem e progresso. Mas como? Quais seriam os métodos? Com o diálogo? Respeitando os Direitos Humanos? Claro que não! Tanto que o livro lançado por Conte Lopes tem o seguinte título: Matar ou Morrer.

Esse é o mesmo “sistema” que, em 1992, através da suposta ordem do Governador de São Paulo à época, Luiz Antônio Fleury Filho, matou 111 detentos no Carandiru. Tal episódio inspirou artistas e foi fundamental para a criação do PCC (leia o que seria o estatuto do “partido”). Lembrando o sábio Raul Seixas, “(…)você mata uma / E vem outra em meu lugar(…)”.

Por enquanto acreditamos na farsa do “sistema”, na farsa da repressão. É incrível como esse sentimento está ligado à desigualdade social, ao medo que foi imposto às pessoas. Medo de dividir seus bens. Medo esse que quem realmente deveria ter eram os grandes poderosos, donos de muito dinheiro. Assim fica fácil entender o status quo que estamos mergulhados e permaneceremos por muito tempo, afinal esta visão está enraizada em muito mais do que 207 mil pessoas. É a mesma visão que dita o linchamento de uma pessoa fora dos padrões de vestimenta.

Carandiru - Rebeliao em 2001. (Foto: Divulgação)

Como um excelente documentário, não apenas nos ajuda a responder questões, mas faz outras que estão muito longe de serem respondidas, como “por que manter uma pessoa presa se ela não representa perigo para a sociedade e está regenerada?”, ou “como definir quem está regenerado e quem não está?”, ou “se alguém ficar 30 anos preso estará necessariamente regenerado após a liberdade?”,, ou “o que é representar perigo para a sociedade?”, ou “o gás é a única diferença entre o holocausto promovido na Alemanha Nazista e o holocausto nos presídios brasileiros?”…

Boas perguntas!

Olé

PS: Veja mais vídeos sobre o documentário em seu canal no YouTube: entrealuzeasombra.

Exibição: Em São Paulo e Minas Gerais, desde de 27/11. Rio de Janeiro, 04/12.

São Paulo (SP):
Unibanco Arteplex Frei Caneca / Shopping Frei Caneca
Rua Frei Caneca, 569 – 3º piso – Bela Vista
(11) 3472-2365

Cine Bombril / Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073 – Consolação
(11) 3285-3696

Santos (SP):
Espaço Unibanco Miramar
Av. Marechal Floriano Peixoto, 44 – Gonzaga
(13) 3284-4044

Belo Horizonte (MG):
Usina Unibanco de Cinema
Rua Aimorés, 2424 – Santo Agostinho
(31) 3337-5566

Rio de Janeiro (RJ):
Unibanco Arteplex
Praia de Botafogo, 316 – Botafogo
(21) 2559-8750


Comentários

3 comentários para o artigo “Mais um! Mais um!”

  1. Sandra De Azeredo em 1 de dezembro de 2009, às 09:20.

    Quero deixar aqui meu agradecimento pela matéria, que me envolveu, me fez chorar e sair pesquisando, e pulando de tirinhas em tirinhas, até iprimir a letra “Diário de Um Detento”….e querer assistir CARANDIRU!? Pasme!EU!! alguem que sei lá há quantos anos “Vivi Nas Sombras” da ignorância dos verdadeiros acontecimentos nos Bastidores do Meu Brasil” Me setindo Protegida Nos Braços Da DITADURA…Que Horror!!!Lavagem Cerebral.Quem de nós está realmente “Nas Sombras” os detentos?!

  2. Rafael em 1 de dezembro de 2009, às 19:28.

    O livro Matar ou Morrer foi escrito em resposta a um livro do Caco Barcellos, chamado Rota 66, que falava mal das forças especiais da polícia de São Paulo, a Rota. O livro de Conte Lopes foi adaptado para um filme esse ano, chamado Rota Comando, que mostra o dia-a-dia e os percalços dos policias da Rota. Era pra ser um espécie de Tropa de Elite paulista, mas fracassou, tanto em termos técnicos quanto morais. É uma espécie de filme indepedente brasileiro, bancado pelo próprio realizador, ao que parece, fã de carteirinha da Rota e do deputado desde a infância. Ele não foi lançado nos cinemas, só era vendido em determinados pontos de vendas. Fez um certo sucesso nos camelôs e nos jornais na época de seu lançamento, também pelo fato da música tema ter sido composta pelo Paulo Ricardo e pelo Andreas Kisser, do Sepultura. Tem o trailer do filme e o clipe da música no youtube. Eu sei que isso pode acabar virando uma espécie de propaganda, mas quem puder, não assista. Eu vi e não recomendo. Leiam o livro do Caco Barcellos ou pesquisem a biografia do Conte Lopes que deve ser mais esclarecedor.

  3. E lá vem a Virada Cultural 2010! : Vereda Estreita em 27 de abril de 2010, às 23:17.

    [...] ocasionados por todos os lados (para entender um pouco mais sobre essa pressão assista ao filme Entre a Luz e a Sombra), o movimento acabou sendo diluído por toda a programação. Não há um espaço especial, como [...]

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