Vereda Estreita
                                                

O filme das descobertas



Cartaz do filme "Hanami - Cerejeiras em flor"

Talvez restem apenas dois dias para você, ao terminar de ler este texto, levantar, ir a uma das poucas salas de cinema que ainda exibem Hanami – Cerejeiras em Flor (2008) e ficar paralisado após o fim do filme. Literalmente sem ação. Fiquei assim. Eu e mais de 85% das pessoas que lotavam a sala do cinema. Explicação? Talvez.

O filme fala da cegueira nas relações. Entes queridos, da família ou não, acabam sendo deixados de lado por nós. Mergulhamos em uma vida cada vez mais egoísta. Acabamos não sabendo os sonhos, os desejos, as aflições de quem está ali tão perto. E a relação com aqueles que estão longe fica pior ainda. Pronto, vários anos se passaram, as rugas apareceram e, ao olhar para trás perguntando se tudo valeu, a resposta pode estar longe de ser: “sim, vivemos tudo intensamente”.

Essa cegueira é tão profunda, tão enraizada que muitas vezes é necessário um baque muito forte para perceber o tempo perdido. E geralmente significa a morte ou a iminência dela acontecer. Aí bate a vontade de fazer tudo aquilo que não foi feito, falar tudo o que não foi falado, mudar prioridades…

E estes mesmos dramas que as personagens vivem são trabalhados de uma forma mais ampla pela diretora, simbolizados entra a cultura japonesa e alemã. O desdém inicial do olhar da cultura alemã para a japonesa vai diminuindo conforme se descobre esta outra cultura. Os olhos vão se abrindo, vão notando a beleza das cerejeiras em flor e acabam descobrindo a si mesmos.

E aquele estereótipo de cultura fria, simbolizada por uma pronúncia pouco harmoniosa cai por terra. O final, que até poderia ser previsível, transmite toda a força poética alemã, traz as profundas revelações do amor e rompe qualquer fronteira, seja ela cultural, geográfica, espiritual e até mesmo aquela entre platéia e história.

Definitivamente, é um filme de muitas descobertas. Talvez ainda dê tempo de você fazer as suas.

Olé

PS: mais detalhes do filme podem ser vistos neste artigo da Mostra de São Paulo. Leia depois de assisti-lo.

Detalhes
Título original: Kirschblüten – Hanami
País: Alemanha e França
Diretor: Doris Dörrie
Fotografia: Hanno Lentz
Trilha sonora: Claus Bantzer
Ano: 2008
Estréia: 25 de dezembro de 2009
Salas de exibição

Leia também:

  1. O filme mais triste do mundo
  2. Nossa vida não cabe num filme
  3. Um ensaio sobre a cegueira das produtoras
  4. Sala x Filme
  5. Amostra de um Cinema

Trilha: Início // Cinema

  • Victor Gouvêa

    Nossa Olé, concordo. Também fiquei muito tocado por esse filme. As sutilezas passam o previsível. Dá vontade mesmo de sair recuperando o tempo perdido.

Licença Creative Commons   © 2007-2012 Vereda Estreita
Powered by WordPress.