Os traços curvilíneos dialogam em extrema concordância com o azul do céu, quase insistente. O horizonte nunca deixa de ser avistado em nenhum ponto da cidade que, vez ou outra, assume ares de museu a céu aberto. Hoje, esta cinquentenária ainda exala um quinhão de juventude, efervescência, inovação e muito, mas muito poder.
Quando idealizada, Brasília recebeu imediatamente o título de zombaria de mau gosto. De norte a sul do país, ninguém acreditava na – insana – realização de Juscelino Kubitschek. Foi se tornando realidade, e então erguida de súbito no Planalto Central por milhares de brasileiros que para lá migraram, os conhecidos candangos. Tornou-se um caldeirão cultural dentro de outro, que é o próprio Brasil, assumindo sotaques, times de futebol, crendices e costumes de todos os povos do país.
Agora já é uma senhora crescida: não deixa nada a desejar para muitas capitais do Brasil e consolida-se como um destino turístico urbano de sucesso, apesar da imagem arranhada pelos inúmeros casos políticos que, infelizmente, sedia. Mas a obra máxima de Niemeyer tem muito a oferecer. De restaurantes elegantes e diversificados a uma extensa vida cultural, Brasília ainda entrega paisagens exuberantes às margens de seu fabricado Paranoá.
A capital federal tem particularidades que só são descobertas com o tempo de convívio e observação atenta. Uma delas, sem dúvida, é a dinâmica da cidade. O horário de rush, por exemplo, é às 17 horas, e não às 18, como de costume, denunciando o fim do expediente do funcionalismo público. Os endereços são quase nada além de números, que pouco significam à primeira vista do visitante, mas quando compreendido sob as asas do eixo, passam a ser óbvios. O florescer dos inúmeros ipês embeleza as vias todo setembro, dando vida nova à aridez persistente do clima.
Brasília completa, em 21 de Abril, 50 anos bem vividos, marcados pela reinvenção da arquitetura, consolidação do centro-oeste, personificação do poder e, por que não dizer, muitos escândalos. Como quarta maior cidade do país, merece o reconhecimento de toda a nação por sua importância, e a visitação de turistas que busquem em suas linhas marcantes a força e a leveza que a constituem. Sempre, é claro, sob aquele azul do céu.
Victor Gouvêa
*Publicado anteriormente no Guia da Semana, onde Victor também é colunista.
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