Vereda Estreita

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar!”



Foto: Olegário A. Filho

“Quem anotou a placa desse ano?”. Essa frase não é minha. Ouvi-a em dezembro. Este ano passou como um caminhão, tão violento que ninguém conseguiu anotar a placa. E foi fundamental a contribuição da internet pra propagar esses acontecimentos. Fundada na consciência de que, cada vez mais, as pessoas se entendem como seres midiáticos. Não precisam da mídia, pois são mídia. E como dizer que isso não é uma mudança cultural?

Como negar a mudança no comportamento das pessoas, que cada vez mais participam ativamente da sociedade em que vivem? Disputam espaços e, até mesmo, opinam sobre outras longínquas culturas, que parecem ser tão vizinhas.

Claro que a velha mídia percebeu isso. E a tática é desesperadamente ocupar a internet também. Tenta trazer todo seu aparato massivo para a rede. E, por mais que muitos internautas ainda tendam a acompanhar esses veículos convencionais, a pluralidade das redes faz com que, vez por outra, textos com pontos de vista diferentes caiam no monitor de quem está acostumado a ler só a Veja, por exemplo. E a sementinha crítica está plantada.

Por outro lado, chega a assustar o teor de muitos comentários (escritos por leitores). É estarrecedora e chocante a quantidade de asneira carregada de preconceito que algumas pessoas despejam nos blogs de linha não-conservadora, progressista e fundados nos Direitos Humanos. Chega mesmo a assustar e parece que grande parte do mundo tem um espírito fascista dentro de si. Isso não significa que essa mentalidade da extrema direita não existia antes. Sempre existiu. Seja nas piadas racistas internas, seja nos comentários entre a família ou entre pessoas de confiança. A diferença é que a internet também possibilitou a tais idéias ultrapassar esses limites, escondendo-se atrás do anonimato. São caixas de Pandora que se abrem. (Sorte que o Vereda Estreita ainda não passou por isso).

Mas, é bom lembrar que quem realmente deixa comentários é uma parcela bem pequena do total de leitores. E que, principalmente no Brasil, são poucas as pessoas com acesso à internet. Por isso muitos ainda são contrários aos planos de banda larga verdadeiramente democráticos.

O que resta é produzir conteúdo diversificado. Buscar cada vez mais apurar o teor e ajudar realmente o mundo a melhorar. Não dá pra esperar isso da velha imprensa. Vide o que ela fez em relação aos estudantes da USP, esquecendo de esclarecer as verdadeiras pautas do movimento e distorcendo o discurso em poder fumar maconha livremente no campus universitário.

E neste momento, alguém se levanta e diz: “Absurdo e incoerente aquele que apregoa a cultura, pactuar com quem apregoa o vandalismo pseudo esquerdista dos maconheiros incomodados com a policia no campus da USP. :( Então, como devemos tratar a Cultura? Apenas como um caderno falido de um jornal retrógrado? Ouvi um jornalista cultural que trabalhava na Folha relatar o quanto o Caderno Ilustrada era renegado dentro da própria redação em sua época. Resumiu assim: “sabe? era tipo o patinho feio”. A visão é ultrapassada dentro do próprio jornal.

Cultura seria apenas os eventos artísticos da semana? As exposições limpinhas dos caríssimos museus? Gastar mais do que o valor de um salário mínimo para assistir a um festival internacional de música? É ir ao shopping e assistir a vazias mega produções cinematográficas americanas? Ler best-sellers?

Será que entender Cultura assim não é ser higienista também? Não é estar ao lado do Estado, quando coloca sua polícia repressora para desocupar a “cracolândia”, deixando o espaço “mais limpo”, permitindo desta maneira aos frequentadores da Sala São Paulo curtirem sua Europa idealizada? Não seria justificar profundas mudanças urbanísticas no cotidiano de milhares de pessoas – do bairro Santa Ifigênia – com o objetivo de enriquecer mais alguns empresários? Até onde é o limite do que é Cultura?

Seria fechar os olhos para todas as mudanças (atenção!…) culturais da sociedade. Negar manifestações por uma universidade pública de qualidade e aberta a toda população. Fingir que não viu as Marchas da Maconha e da Liberdade e o reaquecimento do movimento estudantil. Abafar a Primavera Árabe. Inventar sobre o Anonymous. Pular o Hip Hop. Negligenciar o fato de que a palavra do ano de 2011 foi ‘ocupação’: reitorias, prédios abandonados, órgãos públicos, ruas, praças públicas… ocupações pipocaram em todas as partes do mundo contra a opressão das elites, vestidas de Estado e protegidas por seus aparelhos repressores, vulgo polícias.

Tudo isso é cultural. E aqui no Vereda Estreita é possível enxergar assim. Divulgamos links de outros sites sem nenhum problema. E não nos esquivamos de discussões importantes, às quais, no velho modelo, somente os poderosos cadernos de política estão autorizados a entrar.


(para assistir com legendas, vá direto ao YouTube. Leia mais sobre Noam Chomsky.)

Minhas professoras na escola diziam: “Leiam jornais! Vocês precisam se informar!”. Tenho orgulho de continuar desobedecendo-as até hoje.

Olé

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  • http://www.arquivopassional.com/ Elis Culceag

    Acho que para acompanhar o que está acontecendo no mundo, não basta apenas ler ou assistir aos jornais, porque eles só noticiam o que é conveniente mostrar às massas.

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