Foto: Olegário A. Filho
Chegamos por volta das 4 da manhã de domingo pra segunda. Conforme o carro entrava na região da Avenida Rio Branco, íamos encontrando algumas pessoas circulando. Numa das ruas paralelas, uma viatura enquadrava alguns. Os policiais estavam vestindo luvas brancas. Cheguei a pensar que se tratava de um acidente, sangue, feridos, mas devia ser só preconceito mesmo.
Iniciamos a nossa andança a pé. Não queríamos fazer como a imprensa convencional normalmente faz: ficar apenas circulando de carro, tirando fotos do alto de prédios ou se aproximar deles escoltado por seguranças (ou pela polícia). Descemos. Logo de cara, começamos a falar com um pequeno grupo. Explicávamos a idéia de ouvi-los. Mas se negaram a falar.
Foto: Olegário A. Filho
Chegando à Rio Branco, vimos um grupo que estava sentado numa calçada do outro lado da avenida. Por um instante, a luz de um isqueiro dava o ar de sua graça enquanto uma viatura da Força Tática passava no sentido oposto. Iniciamos a travessia. Um de nós percebeu que a Tática voltaria e pediu para diminuirmos o passo. Alguns segundos depois, a mesma viatura já tinha feito o retorno e trazia sua brutalidade para aquela calçada. Os policiais não estavam brincando. Se o grupo resolvesse permanecer parado na calçada, não tenho dúvidas de que a Blazer teria passado por cima de seus corpos. Levantaram dali correndo. Um deles ria. Um outro se revoltara e xingou os policiais, que o perseguiram – de forma não tão óbvia – montados na Blazer.
A viatura girava em círculos por entre postes de luz da calçada central, tentando atropelá-lo. Tudo a menos de 2 quilômetros da Corregedoria da Polícia Militar. Nesta altura, já haviamos chegado à esquina (da qual aquelas pessoas haviam sido enxotadas). O menino que fugia dos policiais veio em nossa direção e tentou se esconder entre as fachadas da rua dos Gusmões. A viatura parou na nossa frente e um policial desceu. Muito nervoso, gritou: “Some daqui se não dou um tiro dentro da sua boca!”. O rapaz saiu correndo. E a viatura continuou sua patrulha.
Foto: Olegário A. Filho
Duas ruas depois, avistamos aquela viatura. Vinha na direção oposta. Parecia falar alguma coisa para alguns que ali estavam. Destoávamos do cenário. O que quatro caras faziam por ali com mochilas…? Lá vieram os policiais nos abordar. Trataram-nos com respeito. Alertaram para o perigo de perambular por ali: “Pra onde estão indo?”. Exitamos. “Vamos ali para a Av. Ipiranga…”. Indicaram um caminho. Segundo eles, menos perigoso. Andaram um pouco ao nosso lado e depois foram embora. Continuamos à procura de depoimentos sinceros de quem ainda não havia sido ouvido.
Encontramos dois rapazes que trabalham por ali. Disseram conhecer alguns usuários de crack e se dispuseram a nos ajudar. Fizeram o meio de campo conversando com um casal que passava naquele momento que acabou aceitando falar. O resultado é o vídeo abaixo, que foi ao ar no programa Segunda Dose, pela #PosTV.
Pessoas. Não, zumbis (como amplamente divulgado). São seres humanos. Lúcidos. Essa menina insistiu muito dizendo que eles não eram bichos. E claramente tentava separar o conceito de doença do de vício: “não é doença não, é um vício”. Doença naquele sentido de câncer, que precisa ser eliminado a todo custo.
Em que medida o crack é realmente o problema? Será que se fosse uma aglomeração de mendigos eles seriam mais aceitos? Também não seria pauta da velha imprensa, e mesmo assim os direitos individuais seriam abalados pela repressão, pela negligencia do Estado?
E o pior de tudo isso é imaginar que usam essas pessoas como fator de especulação imobiliária.
Como divulgado pelas autoridades que encabeçavam essa “limpeza”, tudo fazia parte do plano Nova Luz. E em que consiste? Em vender uma parte do Bairro Santa Ifigênia para um grupo privado.
O Documentário abaixo, de Fernanda Stica, acaba com aquela idéia (propagada pela velha mídia) de que o Centro de São Paulo foi abandonado. Na verdade, foi abandonado por uma parcela da população (os mais ricos).
Tudo isso é reflexo de um quadro político alimentado pelo setor imobiliário, respaldado pela polícia.
Abaixo, outro documentário, feito pelo projeto Moseo del Desplazados, do coletivo espanhol Left Hand Rotation.
É muito animador perceber que estratos da sociedade que antes pouco se toleravam, aparecem aqui mais solidários uns com os outros. Principalmente por perceberem que as injustiças atingirão todos.
Afinal, uma parcela da sociedade decidir que um outro grupo não tem o direito de viver no mesmo local é uma atitude que bebe em princípios nazistas e fascistas. Políticas higienistas, autoritárias…
Olé
PS: Amanhã, 14/01 (sábado), às 16h, vai rolar o Churrascão da Gente Diferenciada – versão Cracolândia. Está marcado para ser nas esquinas entre a Rua Helvétia e a Alameda Dino Bueno. Confirme sua presença no evento feito no Facebook.
















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