Vereda Estreita
                                                

Aos fatos, uma reflexão



O vídeo do Big Brother, que mobilizou discussões acaloradas ao longo desta semana, sobre a possibilidade de estupro por parte do hoje eliminado Daniel exige uma reflexão filosófica. Coloquemos de lado as declarações dos partiipantes, confusas e controversas, sujeitas a sabe-se lá que tipo de pressões, e atemo-nos ao vídeo.

Há, na polarização do debate, posições radicais, que chegam até mesmo a comparar o sexo não consensual a contos de fadas. Não é preciso mais do que dois neurônios para colocar de lado imediatamente tamanha estupidez. Mas, ainda, há uma massa de pessoas que, flutuante, acaba aderindo a posições sem a devida compreensão de sua profundidade.

Reflitamos, então.

Quem nos ajudará é Hobbes. Em sua principal obra, Leviatã, Hobbes nos mostra sua visão sobre o homem e sobre a sociedade.

A título de alegoria, ilustra o estado de natureza. Ali, não há lei, não há regra. Ninguém precisa se submeter. A medida é a potência. Come-se o que se quer, quando se quer, saciam-se as vontades quando e como se deseja. Assim, na fome, come-se. Na sede, bebe-se. No tesão, fode-se.

É bem legal. Tudo beleza. Basta satisfazer os desejos. Basta aumentar a potência. Só alegria. Mas há alguns problemas.

Imaginemos que o ardor sexual esteja a mil. Pega-se a vítima mais próxima. Incapaz de resistir à sua força, a violação é inevitavel. Prazer máximo atingido. Como não há regra, saciado, você abandona sua presa e vai atrás do próximo deleite.

Mas, mesmo que você seja o mais forte, não é possível ser o mais forte sempre. Assim é a vida. Um eterno jogo de relações. Ininterruptas. Inéditas. E eis que até o mais forte dos fortes tem que dormir.

Eis que, no final, o afeto dominante do estado de natureza é o medo. Acordado, medo de ser submetido por alguém mais forte. Ao dormir, medo de ser submetido por qualquer um.

Eis o porque da formação da sociedade. Uma união de fracos e fortes, na qual todos abrem mão da satisfação imediata dos desejos, em nome da segurança, do fim do medo. Da não-submissão. Garantida pelo Estado proveniente desta união.

Hemos de nos perguntar, então, qual o pano de fundo da discussão do BBB. Uma pequena comidinha inocente de uma jovem embriagada, que escolheu encher a lata, ou uma violação da fundação mesma da sociedade, segundo Hobbes.

Ora, àqueles que defendem o pobre garoto, movido pelos seus hormônios, sugiro a reflexão do verdadeiro sentido de sua defesa. Defende-se que, ao indefeso, ao inconsciente, ao bêbado, seja concedida a exclusão do tecido social. Defende-se que o princípio básico da formação da sociedade seja ignorado justamente no momento em que mais precisa existir. No momento da fraqueza.

Por isso, hobbesianamente, o (suposto) abuso transmitido em tempo real, e punido até agora administrativamente, é um ataque o mais brutal possível. Não só à garota, mas à sociedade como um todo. É um retorno a um estado de natureza. Dentro de um Estado social. O pior dos mundos.

Então, sugiro aos que insistem em defender a atitude do garoto, que, pelo menos por um dia, durmam com a porta aberta. Não só a do quarto, mas a da casa. Não destrancada. Aberta mesmo. Que durmam no carro, com os vidros escancarados, Que, por um dia, não se fechem, não busquem a sua tão prezada segurança. Que desliguem as câmeras de vigilância, que desliguem os celulares. Que não se escondam. Uma verdadeira prova de resistência. Ao medo, inevitável. Um encontro com o homem, lobo do homem. Um verdadeiro entendimento do porque de existirem leis. Uma verdadeira reflexão sobre uma posição defendida imprudentemente.

Clóvis de Barros Filho

Leia também:

  1. De quem é o corpo?
  2. Virada Cultural 2009 aos trancos e barrancos
  3. A Cultura do medo
  4. Culturas
  5. Faustão em Alta

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  • Paulo Bettanin

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    Paulo Bettanin.

  • http://twitter.com/Mariajose53 MARIA JOSÉ (Nina)

    O ataque mais brutal é o próprio BBB, mal maior ainda é perceber que a sociedade aplaude e assiste camarote este prostíbulo televisivo. Por outro lado, se conforme o CP  crime óde ser ma ação ou uma omissão, questiona-se, onde os responsáveis pelo programa que poderiam e deveriam ter impedido o ,suposto, abuso e não o fizeram em o nome de ibope e audiência. Então,por favor, abordar Hobbes e o seu magistral Leviatã, para quais interlocutores?

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