Pré-carnaval, 2012. Vila Madalena, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho
O pré-carnaval da cidade de São Paulo teve um peso e duas medidas: enquanto blocos foram impedidos de circular, outros puderam exercer o legítimo direito de ocupar as ruas da cidade.
Os foliões do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta tiveram que se contentar com o confinamento em um estacionamento, como bois, gado. Claro que não estavam felizes. O grito de carnaval era direto e reto: “Ei, Kassab, vai tomar no cu!”, o que resume bem as muitas presepadas da administração do prefeito, como bem coloca Lino Bocchini no blog Desculpe a Falha Nossa.
E ao mesmo tempo, outras pessoas não foram impedidas de ocupar as ruas da Vila Madalena. Brincaram o carnaval democraticamente. Era só chegar e se misturar. Apesar da sugestão segregativa da PM, como relatou o jornalista Igor Carvalho, do SPressoSP, que esteve presente na última reunião burocrática sobre as comemorações:
‘o Capitão Novaes, do 11º Batalhão da Polícia Militar sugeriu a idéia de elitizar a folia paulista:
“O carnaval de São Paulo que se organize
como o de Salvador, passando a cobrar de
seus foliões, seria inclusive mais fácil para
identificarmos as pessoas”’
A brincadeira foi gratuita. Mesmo existindo sugestões feitas por parte da própria polícia que excluem socialmente as pessoas. E até revelam as filosofias corporativas da instituição que deveria zelar pela integridade física e psicológica do ser humano e nunca ajudar a segregar classes e a propagar preconceitos.
Pré-carnaval, 2012. Vila Madalena, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho
E qual a finalidade de “identificarmos as pessoas”? Até que ponto o aparelho repressor do Estado precisa monitorar o cidadão? É o tipo de lógica que, se houvesse tecnologia, faria a polícia vigiar até mesmo o nosso pensamento. Baseado sempre no medo. Na cultura do medo. Aliás, se vigilância fosse sinônimo de segurança, o Big Brother seria o lugar mais seguro do mundo, onde jamais surgeria qualquer possibilidade de crime durante o programa.
Sem falar que o Carnaval é exatamente a festa dos mascarados! É onde as pessoas não tem identidade, se vestem como querem, viram do avesso aquela coisa vaga conhecida por “a moral e os bons costumes”. Carnaval não é só Escola de Samba em competição, como insiste há muitos anos a grande mídia. É também cordão, bloco, banda, música, festa. Se é um absurdo querer vigiar sempre que possível a população, o que dizer deste momento tão especial?
E mais esdrúxulo ainda é burocratizar o Carnaval, exigindo procedimentos administrativos, tecnicos etc para que se autorize os blocos irem pra rua! Os processos não são para facilitar a vida dos foliões, dos cidadãos mas para desencorajá-los de sair de casa. Afinal, a lógica regenete é: a rua é do carro e não das pessoas.
Nas entrelinhas, é o mesmo que dizer: as pessoas não podem ocupar as ruas sem prévia autorização; que o espaço público não é público.
Então, levantam-se as senhorinhas dos bons costumes e perguntam:
_ “Mas esses baderneiros saem mijando pelas ruas? E o lixo que esses…?”
Respondo: os mijões, assim como as senhoras, precisam mijar, afinal, todos nós mijamos. Durante o carnaval, as pessoas estão mais tempo nas ruas, nos espaços públicos, longe de seus banheiros particulares. Como não existem banheiros públicos, ficam à mercê da benevolência do comercio da região. O resultado é visto com um número considerável de pessoas urinando nas ruas. Ou seja, bebendo álcool ou não, um ser humano de tempos em tempos precisa utilizar o banheiro. Portanto, os mijões, só escancaram o descaso do Poder Público com a população: onde estão os banheiros públicos? E por um erro do Estado, as pessoas são condenadas a ficar em casa.
Pré-carnaval, 2012. Vila Madalena, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.
O mesmo raciocínio vale para as lixeiras. Onde elas estão? Por que não intensificar a coleta levando em conta também a circulação de pessoas? A cidade já não tem lixeiras suficientes no quotidiano, o que dirá em festas…
E quais são as saídas dos governos que não dão assistência ao cidadão normalmente? Culpar as pessoas, ou no bom e velho português: tirar o corpo fora. A culpa sempre é do cidadão, repare. Jamais o Governo é culpado por não oferecer infra-estrutura adequada. No Rio de Janeiro, em 2010, por exemplo, eles improvisaram colocando muito menos banheiros químicos do que realmente deveria (sem a devida manutenção necessária durante o evento) e prendiam quem fazia xixi na rua. Este ano, até mesmo um dirigível será usado para vigiar os foliões. E serão 15 mil banheiros químicos para 450 blocos! Um dos maiores e mais tradicionais blocos, na última sexta-feira (10/02/12, pré-carnaval), reuniu entre 80 e 130 mil pessoas! A polícia prendeu 68 mijões. Faltou a conta de quantas pessoas passaram perrengue querendo urinar, quantos banheiros químicos estavam à disposição no local, quantas pessoas urinaram no espaço público e não foram presas, quantos se valeram de banheiros do comércio da região.
E tudo isso não está atrelado apenas ao carnaval. Mas as políticas urbanas são assim. Por exemplo, repare nas praças. As poucas que existem, são confortáveis ou são bonitas? Ou seja, elas foram construídas para serem admiradas ao passar por elas (de carro) ?
O discurso é sempre o do monitoramento, da repressão, da segregação. Rumamos para a distopia.
Pré-carnaval, 2012. Vila Madalena, São Paulo. Foto: Susan Ritschel.
Quais são as políticas públicas que incentivam os cidadãos a estarem na rua? Apenas as que envolvem os carros. Além da falta de banheiros, as poucas praças que existem (quando não estão gradeadas), são pouco confortáveis; todas as ruas tendem a ser vias expressas dadas a alta velocidade dos carros, o transporte público é caro e horrível, o comércio de rua tende a cada vez mais ir para o shopping…
Desse modo, o carnaval também é resistência: pelo direito de se divertir, pelo direito de ocupar o espaço público, pelo direito de obter equipamentos públicos que dêem dignidade ao cidadão, pelo direito de livre reunião, pelo direito de se vestir como bem entender, pelo direito de cantar e dançar se sem saber com quem, pelo direito de xingar seu prefeito, pelo direito de não ser identificado como gado…
Pré-carnaval, 2012. Vila Madalena, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.
E nada mais carnavalesco do que criar, misturar e alterar uns versos do Chico Buarque, aproveitando as grandes expectativas criadas no ano de 2011:
Em 2012,
a banda vai passar
E como você vai proibir
“Quando o galo insistir
Em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar.”
Boa folia (é seu direito)!
Olé
PS: mais fotos da folia do dia 12/02/12 na Vila Madalena, aqui.
Leia também:
- Álbum: Folia autorizada – Vila Madá, São Paulo, 2012
- Xixi aqui não! Onde então? Sei não…
- Quem são os forasteiros?
- Gentrificando o Centro
- O Centro do Poder*
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