FLIP 2010: ir ou não ir?
Publicado em 4 de agosto de 2010, às 08:01. | 2 Comentários
Artigo sobre Em cartaz / A ser exibido, Festivais, Literatura, Reflexão.
Ao mesmo tempo que a Festa Literária Internacional de Paraty é um estimulo para o aumento de repertório, também pode ser muito mercadológica e dar pouco apoio para escritores nacionais já conhecidos.
Outras referências são sempre bem-vindas. Ainda mais quando são de fora, e fazem atravessar oceanos linguísticos. Isso pode ser um grande incentivo para qualquer pessoa que tenha pouco contato com a Literatura: estudantes do Ensino Médio ou leitores de best-sellers. Eventos podem ajudar popularizar o erudito. Um bom panorama sobre o que poderá ser visto na programação principal deste ano é este artigo de Mona Dorf. Abaixo, três vídeos que ela fez entrevistando o curador do evento, Flávio Moura.
Mas tem outro lado: o que acaba cedendo por causa de outros interesses mercadológicos, como aponta o escritor Marcelino Freire, em seu artigo Quase tudo sobre a Festa, publicado em seu blog. Lá, explicou porque, sendo um dos grandes entusiastas do evento, decidiu não ir este ano. Um de seus argumentos é que o evento talvez tenha dado uma estacionada quanto proposta literária e valorizado mais o lado mercadológico da coisa.
Outro ponto é que em pleno ano de eleição Fernando Henrique Cardoso (PSDB) abrirá o evento falando sobre o homenageado, Gilberto Freyre. Este ultimo escreveu um dos três livros responsáveis pela formação do pensamento contemporâneo brasileiro (os outros são Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior). FHC fez o prefácio de Casa Grande & Senzala, mas o melhor mesmo era aproveitar Antônio Cândido, (ver livros da Editora Ouro Sobre Azul) que além de ser crítico literário (e com certeza conhece o restante da obra do Freyre), viveu essas transformações todas.
Um ponto triste, e que dá mais fundamentos para os argumentos do Marcelino, é sobre a repressão do ano passado. Autores com nenhuma visibilidade costumam ir a este tipo de encontro para divulgar seu trabalho. O que seria magnífico para o evento, pois faz com que a cidade realmente transpire Literatura. Porém, há registros que em 2009 a Prefeitura de Paraty impediu isso. Pior ainda é ver nas imagens seguranças da própria FLIP ajudando! O artigo mostra a apreensão de livros do Pedro Tostes (leia aqui também), como se estivéssimos em plena ditadura da Idade Média.
Como eu pessoalmente tenho muito a aprender, vou no embalo de meu entusiasmo e estarei lá. Mas a pulguinha está atrás da orelha e não pode ser ignorada. Esta reflexão sobre ir ou não ir colocada pelo Marcelino acontece em um momento importante para o evento. As primeiras edições provavelmente eram mais literárias do que as últimas, e agora é o momento de entender pra qual caminho a Festa vai rumar: o do monopólio mercadológico e absolutista da programação principal (mesas de autores) ou da efervescência artística plural que também brota nas através das várias linguagens artísticas.
Olé
Além dos livros
Publicado em 11 de agosto de 2009, às 02:05. | Deixe um comentário!
Artigo sobre Festivais, Literatura, Produção, Reflexão.

A FLIP seduz desde o primeiro contato. A proposta por si só encanta: um acontecimento literário em uma cidade histórica. Já basta. Qualquer pessoa que goste de Literatura se empolga. E se esse for o mais expressivo evento literário no Brasil, acompanhá-lo se torna obrigatório, mesmo que de longe. Então, o sujeito começa no fim do ano anterior a acompanhar as notícias. Homenageado, convidados, novidades, tudo. É até difícil acreditar que isto possa acontecer num país onde ler está longe de ser prazer para a maioria da população.
Por mais que ela também tenha um foco na promoção e venda de livros (dos autores que ali estão), os horizontes dos leitores acabam abrindo mais. Os clássicos são vistos na escola (e muito mal), já os contemporâneos nem sempre. Como descobrir os olhares de autores chineses sobre o gigante asiático; ou conhecer a irlandesa que teve seus livros banidos de seu país; ou assistir ao primeiro encontro público depois do rompimento amoroso de dois artistas franceses…? São coisas que infelizmente poderiam ser curtidas muitos anos depois de acontecerem, quando já virarem clássicas. Guardadas as devidas proporções, é como viver em 1922 e perder a Semana de Arte Moderna. Àquela época seria perdoável, mas chega a ser inadmissível com a violenta comunicação destes tempos não saber o que está acontecendo (pelo menos!).

Da mesma maneira, seria um crime fazer um evento destes sem o menor envolvimento com a comunidade, principalmente sem os pequenos. Apropriar-se da cidade por alguns dias, discutir cultura e não acrescentar nada? Por mais dinheiro que os turistas possam trazer, ainda sim seria hediondo. Por isso, a Flipinha, apesar de não ter os holofotes principais, é parte fundamental do evento. O trabalho acontece durante o ano todo com as crianças da cidade de Paraty e culminam na Flip. As crianças são incentivadas a ler, os professores participam de oficinas para trabalhar melhor os autores em sala de aula e há diálogo com outras artes.

E como é natural que as crianças cresçam e não se interessem mais pelo conteúdo infantil, esse ano foi criado um espaço para os adolescentes aproximarem-se (e manterem-se próximos) da Literatura: a FlipZona. Assim como a Flipinha, ela tem programação independente, porém abordando assuntos que chamem mais atenção deles: mídias digitais, produção/criação de áudio e vídeo, fotografia, jornalismo, exibição de filmes enfim. E está programada para também ser um projeto continuado, que aconteça durante todo o ano envolvendo as escolas de Paraty.
A Fllipinha e a FlipiZona são o mínimo que se espera de um bom evento, aquilo que a Virada Cultural de São Paulo se esquece por exemplo.

E como nem tudo são flores, os adolescentes continuarão crescendo e se tornarão adultos. O que restará para eles? A catraca, ora! Mesmo sendo patrocinado pelo conglomerado Itaú Unibanco (gigantesca instituição financeira; lucrou 2 bilhões só no primeiro trimestre de 2009), o evento é pouco gratuito. Há duas tendas: uma menor (tenda dos autores, R$30), onde ocorrem as chamadas “mesas”, que são as apresentações dos autores (é fechada) e uma maior (tenda do telão, R$10), onde há telões em que os pagantes podem entrar, sentar e assistir com um conforto mínimo. Para quem não paga (às vezes porque os ingressos acabaram após duas horas da abertura da venda pela internet), tem que se contentar com as beiradas da Tenda do Telão e torcer para não chover. Este é o maior problema do evento: o acesso. Sim, o Ministério da Cultura apóia a FLIP por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, porém falta ainda “descatracalizar” a festa. Há muitos espaços (internos e externos) na cidade que podem receber telões, democratizando um pouco mais.

Já que a parte de sugestões começou, faltam saraus, mesas menores de discussão onde o público possa participar (principalmente sobre o homenageado), exposições, música, teatro… E por outro lado, o número de pessoas já é bastante grande. Talvez fosse a hora de pensar em mudar a data, pois os fins de semana do mês de julho têm fluxos maiores devido às férias escolares. Ainda há muito trabalho a ser feito, mas a organização parece estar na trilha certa.
A energia que a cidade tem durante a festa é ótima. Inegável. As pessoas que se encontra lá são muito interessantes. Mesas são importantes, mas não tudo. Se elas fossem tão fundamentais, poderíamos ficar em casa e assistir tudo via internet. Quando for programar a sua Flip, escolha algumas mesas, veja muitos eventos da OFF Flip, separe tempo para sentar e conversar, tire fotos, encontre e conheça pessoas.

Texto gigante. E não deve ser o último sobre a FLIP.
Olé
Encontro ingênuo
Publicado em 11 de agosto de 2009, às 01:45. | 1 Comentário
Artigo sobre Festivais, Literatura.

Já falei muito aqui que o mais importante na FLIP são os encontros. Pois bem, encontrei esta trupe de artistas que faziam pequenos improvisos no meio das tortuosas ruas de Paraty. Achei-os interessantes, simples.
Parece que também se encontraram pelo acaso da festa. Os homens já se conheciam. Pediram um ponto de energia, o restaurante empolgou-se e cedeu. E a terceira integrante veio de um universo paralelo agregar o espetáculo com suas poesias.
As apresentações eram simples, como experimentações ingênuas, despretensiosas, incertas. Tentei captar isso com a câmera e fiz os vídeos abaixo, mas acho que não consegui. Se usar a imaginação, talvez entenda o que tentei dizer.
Como é bom ser ingênuo!
Olé
Semeando rios
Publicado em 11 de agosto de 2009, às 00:38. | Deixe um comentário!
Artigo sobre Festivais, Literatura, Livros, Teatro.

Um dos critérios para avaliar uma peça infantil é perceber o quanto as crianças avançam em direção ao palco no decorrer da apresentação. Manter a atenção dos pequenos é para poucos, mas a tarefa parecia muito simples para o grupo Coletivo Teatral Sala Preta, que apresentou a peça O Cascudo Douradinho em: Amiga Lata, Amigo Rio, ao final da Flipinha 2009 (programação infantil da FLIP).
O texto surgiu do livro (quase homônimo) Amiga lata, Amigo Rio, de Thiago Cascabulho. Tanto em um como em outro (claro!), a estrutura que dá vida aos rios é bem mastigada para que o público entenda bem como poluímos tanto o meio. Uma das questões mais importantes apontadas é que enquanto somos pequenos, somos críticos e repudiamos esse modo, mas quando crescemos esquecemos a maneira como pensávamos. Reflexão importante também para quem é novo na categoria “adulto”, já que a “sustentabilidade” entrou em pauta há pouco tempo na sociedade, tema pouco comum no currículo escolar dos mais velhos (esse histórico parece ser melhor discutido no livro Educação Ambiental: princípios, história, formação de professores, de Fábio Cascino, 1999 e no capítulo 5 da tese de mestrado Pedra da Miraguaia: Tema gerador de atividades pedagógicas em Educação Ambiental de Ana Matilde da Silva, UNIVALI, 2006).
Tudo isso já rendeu ações que saem do campo literal: o Projeto Douradinho, que além de levar a consciência ambiental com o trabalho da pedagoga Anésia Gilio, também estimula a leitura com a distribuição do livro nas escolas.
Quem quiser conhecer o livro, o projeto e o grupo de teatro acesse as respectivas páginas abaixo:
Livro e projeto pedagógico: Projeto Douradinho.
Coletivo Teatral Sala Preta: salapreta.wordpress.com
Thiago Cascabulho (autor do lvro): blog

Até mais!
Olé
Por que Paraty?
Publicado em 8 de junho de 2009, às 00:07. | 2 Comentários
Artigo sobre Cultura Popular/Folclore, Festivais, Literatura, Livros, Patrimônio, Turismo.

Em menos de um mês, acontecerá um dos mais esperados encontros literários: a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Não é como algum evento de inverno em Campos do Jordão aparenta ser: vazio, onde se tem a impressão de que muitas pessoas vão apenas para ostentar. Essa festa é uma ótima oportunidade para conhecer gente interessante, desde os autores e palestrantes até o público do evento.
Por que Paraty? Paraty tem um conjunto arquitetônico rico, foi um dos grandes portões de entrada do Brasil e viveu seu auge no período aurífero. Estagnou no tempo. O que trouxe a região (litoral Sul do RJ até o Litoral Norte de São Paulo) novamente para o mapa brasileiro foi a estrada Rio-Santos (anos de 1950). E isso ajudou Paraty a cultivar lendas e tradições em tal ambiente de outros tempos, com pouquíssima interferência desenvolvimentista dos grandes centros. Assim como na Biologia, é uma relação de protocooperação: ao mesmo tempo em que a FLIP traz aspectos de requinte intelectual à cidade, a cidade dá ambiência de séculos passados ao evento.
Então, não é nada inteligente ir para a FLIP sem o conhecimento razoável de Paraty. Não só a história oficial contada por séculos, mas também seus contos passados pela oralidade. Por isso, recomendo o livro Paraty – Encanto e Malassombras, de Thereza e Tom Maia.
Esta obra é resultado de pesquisa realizada entre os anos de 1973 e 2005. Pelo nome, pode dar a impressão de que tem muitas páginas com as “malassombras”, mas não. Ele é um “guia cultural” com a história da cidade, pequena descrição sobre as festas, bibliografia (boa lista de referências para outros estudos) e histórias contadas por moradores envolvendo alguns pontos da cidade. Estas últimas foram escolhidas por serem as mais repetidas “dentre as mais de sessenta fitas gravadas” em campo. Também há muitas coisas em inglês. Isso tudo dá corpo às 166 páginas do livro.
Farinha de Suruí
Aguardente de Parati,
Fumo de Baependi,
É só comê, bebê, pitá e caí.
Os autores são o casal Thereza e Tom Maia, que se apaixonaram pela cidade desde a primeira visita em 1958. Junto com outras pessoas, também são responsáveis pela fundação do Instituto Histórico e Artístico de Paraty. Outra obra que parece ser bastante interessante deles (ainda não li) é Paraty – Religião e Folclore, premiada pelo MEC. Isso mostra o quanto se dedicaram pela memória material e imaterial da cidade.

- Foto de Gláucio Dutra Rocha

Caso não esteja com sono durante a madrugada, vale pegar o livro e dar uma volta pela cidade procurando “os seres da noite”. Com certeza a FLIP será outra depois de encontrar o “Coveiro Ladrão” ou talvez a carruagem de Dona Geralda…
Boa festa!
Olé
PS: Este documento pode ajudar, caso não encontre o livro até a FLIP.
Crédito da última foto: Gláucio Dutra Rocha.


