“A” noite de 67!

Publicado em 28 de julho de 2010, às 02:43. | 1 Comentário

Artigo sobre Cinema, Em cartaz / A ser exibido, Música.


Caetano Veloso. Foto: Wilson Santos/CPDoc JB

Nos cinemas, estréia nesta sexta (30/07), “Uma Noite em 67”

Como fazer um bom recorte de uma época tão turbulenta? Anos 60. Brasília. Guerra-fria. Jango. “Paz e Amor”. Decadência da Bossa Nova. Golpe de Estado em 64. Movimento anti-guitarra. Arte Pop. Costa e Silva. Guerra do Vietnã. Fleury. Beatles. Novos rumos da MPB…

Aqui na terrinha, a centralização dos meios de comunicação era uma grande dificuldade para lançar novos trabalhos. Àquela altura, as novelas não reinavam. Programas musicais dominavam os horários nobres. Não demorou muito para surgir a fórmula dos festivais televisivos, que acabavam sendo “as” oportunidades para artistas exporem seus trabalhos.

Sérgio Ricardo. Foto: Wilson Santos/CPDoc JB

Pessoas nascidas depois de 1962 talvez não tenham noção do que os festivais foram. Talvez uma mistura de Reality Show com o efeito Copa do Mundo. As pessoas aguardavam ansiosas aquelas noites. A família inteira, do avô com 70 anos ao netinho de 8, parava à frente da TV e torcia calorosamente. A audiência era altíssima!

Chico Buarque e MPB4. Foto: Wilson Santos/CPDoc JB

Renato Terra e Ricardo Calil tinham a intenção de fazer um documentário sobre os festivais. Perceberam que precisavam diminuir o tamanho de sua abordagem para um único festival. Mas qual seria o mais emblemático? Escolheram o que trazia os compositores como intérpretes, o que tinha mais qualidade musical. Foi também nele que Caetano Veloso e Gilberto Gil começam a romper com a MPB, iniciando o Tropicalismo.

Optaram ainda por reduzir mais. Não retratar todos os dias, somente a final. E dela, somente seis músicas:

Chico Buarque e o MPB 4: “Roda Viva”;
Caetano Veloso e os Beat Boys: “Alegria, Alegria”’
Gilberto Gil e os Mutantes: “Domingo no Parque”
Edu Lobo e Marília Medalha: “Ponteio”;
Roberto Carlos: “Maria, Carnaval e Cinzas”
Sérgio Ricardo: “Beto Bom de Bola”

Assim como tinha o “bandido” e o “mocinho”, tinha a música “pura” versus a “importada”; “politização” versus “alienação”; “caretice” versus “renovação”; “samba político” versus “samba disfarçado”… O público estava dividido. Muitos estudantes faziam parte da plateia e iam ali para ovacionar aquilo que era abafado nas ruas pela Ditadura. Agentes do Comando de Caça aos Comunistas também estavam presentes. Tudo fervia.

O resultado de tudo isso é o documentário “Uma Noite em 67”. Para quem viveu aquela época, rememorar tudo aquilo e para quem não viu ao vivo, é um ótimo ponto de partida para entender um pouco mais o panorama daqueles famigerados anos 60.

Gilberto Gil. Foto: Wilson Santos/CPDoc JB

Enfim, vale muito a pena assistir e perceber que, no fundo, hoje o que menos importa é a colocação final das músicas.

Boa sessão!

Olé

PS: os diretores têm mais de 70 horas de material gravado e prometeram disponibilizar de alguma forma. Agora é esperar também o DVD ou os DVDs.

Detelhes
Título original: Uma Noite em 67
País: Brasil

Diretor: Renato Terra e Ricardo Calil
Fotografia: Jacques Cheuiche
Montagem: Jordana Berg
Ano: 2010
Estréia: 30 de julho de 2010
Salas de exibição




Quarteto na São Bento

Publicado em 13 de julho de 2010, às 22:15. | 2 Comentários

Artigo sobre Festivais, Música.


Os três vídeos a seguir acabaram sendo feitos no improviso. Estão com baixa qualidade, mas valem como registro, afinal não é todo dia que se pode ouvir o  Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo tocando dentro da igreja do Mosteiro de São Bento.

Isso aconteceu durante a Virada Cultural 2010. As composições são do russo Dmitri Shostakovitch. Os músicos são Betina Stegmann e Nelson Rios (violinos), Marcelo Jaffé (viola) e Robert Suetholz (violoncelo).

Olé




“Comunas do Samba”, no SESC Pompeia

Publicado em 26 de dezembro de 2009, às 23:56. | 2 Comentários

Artigo sobre Cultura Popular/Folclore, Música, Shows.


Oito oportunidades para conhecer um pouco mais do “samba  paulista”, samba vivo feito por [oito] comunidades de São Paulo.

Elas acontecerão em janeiro, na Choperia do SESC Pompéia e compõem o projeto Comunas do Samba, o qual consiste em dar palco ao samba local, que tem todas as suas particularidades: a união, a comunhão e a confraternização das comunidades. Enfim, muitas descobertas.

Os pequenos textos abaixo são de autoria da assessoria de imprensa do SESC Pompéia. Apresentam as comunidades e a data do respectivo show.

Bons shows!

Olé

Projeto Samba Autêntico (Rua do Samba) – part. de Virgínia Rosa
Dia 08/01 (sexta), às 21h.

Realizado todo ultimo sábado do mês – desde o ano de 2002 no Largo General Osório, no bairro da Luz, o Projeto Samba Autêntico atualmente se apresenta provisoriamente no Vale do Anhangabaú, no centro da cidade. O objetivo é o resgate, a promoção, a divulgação e a preservação do samba paulista, por meio do reconhecimento e da homenagem a todos aqueles que lutaram, lutam e continuarão lutando pelo samba. Outro viés da iniciativa está na contribuição para revitalizar essa região da Luz, conhecida como “cracolândia”. Constitui-se com um terreiro de lazer e congraçamento da população afrodescendente, pelas suas heranças e referências culturais e pela afirmação de sua singularidade, identidade, inclusão social e construção de cidadania.

Tias Baianas Paulistas – participação de D. Inah
Dia 09/01 (sábado), às 21h.

O grupo das Tias Baianas Paulistas foi idealizado e fundado por Valter Cardoso, o Valtinho das Baianas, entre os anos de 1994 e 1995. A banda começou com sua esposa, Dona Nadir, sua cunhada e algumas amigas das alas das baianas de diversas escolas de samba, entre elas Nenê de Vila Matilde, Camisa Verde e Branco e Vai-Vai. Por chefiar essa ala nos desfiles, Valter acompanhava de perto o cotidiano das integrantes e os descuidos enfrentados por essas antigas sambistas. Isso o levou a fundar um grupo de valorização da história e do papel da baiana nos desfiles e nas agremiações. Simultaneamente, Valtinho possibilitou a esse grupo o desenvolvimento de uma atividade paralela à atuação nas escolas de samba. Assim elas puderam mostrar suas habilidades pessoais, aprender mais sobre sua função no carnaval, discutir sobre as condições de desfile e promover apresentações, como um grupo vocal e símbolo do samba, inclusive com a formalização em 1997 como a Associação Cultural Claridade Tias Baianas Paulistas. Desde maio de 2007 participam da Praça do Samba, evento mensal realizado pelo Kolombolo dia Piratininga na Praça Aprendiz das Letras, na Vila Madalena. Em 2008 foram tema do documentário “Tias Baianas Paulistas”. Este ano lançaram seu primeiro CD “Tias Baianas Paulistas” na Coleção Memória do Samba Paulista.

Samba da Laje – participação Serginho Meriti
Dia 15 (sexta), às 21h.

A Comunidade do Samba da Laje anima a região da Vila Santa Catarina todo último domingo do mês, sempre com um convidado especial em cada edição. Desde julho de 1997, as feijoadas com roda de samba são promovidas com a intenção de proporcionar um dia de alegria e descontração à comunidade, assim como divulgar o tradicional samba de roda. O repertório é variado e vai de Noel Rosa a Zeca Pagodinho. A maioria dos músicos está na faixa etária de 15 anos, jovens que respeitam e preservam o samba raiz, e as pastoras que marcam presença com suas vozes agudas.

Pagode do Cafofo – participação Maurílio de Oliveira
Dia 16 (sábado), às 21h.

A Comunidade do Pagode do Cafofo foi criada em novembro em 2002, para difundir a autenticidade do samba e valorizar os compositores locais. Os encontros são realizados na comunidade a cada primeiro e terceiro domingos do mês.

Roda de Samba Ouro Verde – participação Nelson Sargento
Dia 22 (sexta), às 21h.

Há mais de 25 anos as rodas de samba Ouro Verde, em Santos, são os lugares ideais para levar a família e escutar um bom samba de raiz nas noites da maior cidade do litoral paulista. Lá, o gingado do gênero envolve tanto os mais idosos quanto os mais jovens. Quase todos os integrantes do Samba Ouro Verde se conhecem desde a infância. Foi nessa fase que aprenderam a gostar desse tipo de música ouvindo seus pais, tios ou avós tocarem juntos nos fundos dos quintais. Aos poucos, outros músicos foram convidados para participar do movimento em prol da boa música. Desde o início, os participantes usam a quadra do Ouro Verde Futebol Clube. Com o tempo, os moradores do bairro Marapé passaram a frequentar o clube e, assim, o público cresceu e se tornou cada vez mais fiel.

Núcleo de Samba Cupinzeiro – participação Amélia Rabelo
Dia 23/01 (sábado), às 21h.

Criado em 2001, o Núcleo de Samba Cupinzeiro pesquisa, compõe e realiza atividades em torno do samba. O trabalho do núcleo tem recebido muitos elogios dos críticos e do público e agrega diversas frentes de trabalho: espetáculos, seminários, oficinas, rodas, textos publicados, gravações e documentários. Já produziu vários eventos ligados ao samba na cidade de Campinas, como o Ciclo do Samba, a Oficina de Samba Paulista, o Dia do Samba e o Bloco do Cupinzeiro, além de acompanhar músicos como Wilson Moreira, Tia Surica, Walter Alfaiate e Diogo Nogueira, entre outros.

Kolombolo Diá Piratininga – participação Thobias da Vai-Vai
Dia 29/01 (sexta), às 21h.

O Kolombolo Diá Piratininga surgiu em 2002 com a ideia de ser grêmio recreativo nos moldes dos antigos cordões. Atualmente, o grupo realiza pesquisas, oficinas culturais, encontros, produções de CDs e de shows para trazer ao conhecimento do público a história do samba paulista. O Kolombolo realiza entrevistas, registros fotográficos e audiovisuais e faz levantamentos biográficos e bibliográficos sobre o samba e a cultura popular do Estado de São Paulo. Dentro do selo Kolombolo foi lançada a série de 12 CDs da Coleção Memória do Samba Paulista, entre outros trabalhos. No último domingo de cada mês é realizada a Praça do Samba, com a reunião de sambistas, amantes do samba e comunidade.

Passado de Glória – participação Wilson Moreira
Dia 30/01 (sábado), às 21h.

A comunidade do Samba Passado de Glória, desde 2007, se volta ao resgate do samba da velha guarda e de seus mestres e sambistas e compositores esquecidos. Além de exaltar o gênero musical, o Passado da Glória contribui com algumas entidades e associações de assistência que ajudam comunidades carentes.

Serviço: Projeto “Comunas do Samba”
SESC Pompéia (São Paulo)
Rua Clélia, 93
Dias 8, 9, 15, 16, 22, 23, 29 e 30 de janeiro de 2010. Sextas e sábados, às 21h.
Choperia. Não é permitida a entrada de menores de 18 anos.
Ingressos: R$ 4,00 a R$ 16,00
Telefone para informações: (11) 3871-7700
Acesso para deficientes.
Não há estacionamento.




Mais um! Mais um!

Publicado em 1 de dezembro de 2009, às 02:20. | 3 Comentários

Artigo sobre Cinema, Música, Reflexão.


Como fazer sete anos de filmagens virarem um documentário de quase duas horas? Entre a Luz e a Sombra é a resposta de Luciana Burlamaqui para esta questão. E não é qualquer resposta. É uma resposta em forma de muitas perguntas. Trabalho tão profundo que está ao lado de outros grandes do cinema nacional, como Cidade de Deus, Ônibus 174, Estação Carandiru e Tropa de Elite, que tratam da mesma temática e mostram a urgência da reflexão que negamos a fazer todos os dias.

Há três histórias entrelaçadas que conduzem o enredo: a de Sophia Bisilliat, a da dupla de rap 509-E e a do juiz Octávio de Barros Filho.

Sophia é atriz e quis levar arte aos detentos do Carandiru. Em vinte anos de trabalho, criou o projeto “Talentos Aprisionados”, o qual tentava dar alguma luz para destacados artistas da cadeia. Assim, ela conhece a promissora dupla Dexter e Afro-X. Conseguiu a gravação de um CD e a autorização para que eles pudessem fazer shows de divulgação fora da penitenciária. Após  muitas saídas, um convite para um debate uma das emissoras mais vistas no Brasil seria uma grande oportunidade para mostrar suas idéias, sua recuperação, seu talento. Chega o momento chave do filme: a aparição no programa Altas Horas, da TV Globo. Seria debatendo a pena de morte. A discussão rumou para a pena de morte não-oficial, aquela que acontece por aí, nas ruas, nas sombras, feita por quem tem licença para matar. O adversário do debate era ninguém menos que o deputado estadual Conte Lopes, que em 98 foi o segundo deputado mais votado e em 2006 foi reeleito com 207 mil votos paulistas. O clima esquentou tanto que a conversa teve de ser interrompida. Coincidência ou não, após isso a dupla passou a ter uma dificuldade monstruosa para sair da cadeia. E o gênio e juiz que acredita na reabilitação, começa a ser colocado de lado, perde força e também fica às escuras.

509-E: Afro-X e Dexter. (Foto: Divulgação)

Por quê? O que querem esconder? Que há salvação. A idéia a passar: quem comete um crime nunca mais será o mesmo; não há regeneração. A escola formadora deste tipo de visão chama-se ditadura. Parece clichê, mas basta olhar a biografia do deputado e ver em quais anos ele cursou a academia de polícia. Ele é uma peça formada pelo “sistema” para manter tudo na mais santa ordem e progresso. Mas como? Quais seriam os métodos? Com o diálogo? Respeitando os Direitos Humanos? Claro que não! Tanto que o livro lançado por Conte Lopes tem o seguinte título: Matar ou Morrer.

Esse é o mesmo “sistema” que, em 1992, através da suposta ordem do Governador de São Paulo à época, Luiz Antônio Fleury Filho, matou 111 detentos no Carandiru. Tal episódio inspirou artistas e foi fundamental para a criação do PCC (leia o que seria o estatuto do “partido”). Lembrando o sábio Raul Seixas, “(…)você mata uma / E vem outra em meu lugar(…)”.

Por enquanto acreditamos na farsa do “sistema”, na farsa da repressão. É incrível como esse sentimento está ligado à desigualdade social, ao medo que foi imposto às pessoas. Medo de dividir seus bens. Medo esse que quem realmente deveria ter eram os grandes poderosos, donos de muito dinheiro. Assim fica fácil entender o status quo que estamos mergulhados e permaneceremos por muito tempo, afinal esta visão está enraizada em muito mais do que 207 mil pessoas. É a mesma visão que dita o linchamento de uma pessoa fora dos padrões de vestimenta.

Carandiru - Rebeliao em 2001. (Foto: Divulgação)

Como um excelente documentário, não apenas nos ajuda a responder questões, mas faz outras que estão muito longe de serem respondidas, como “por que manter uma pessoa presa se ela não representa perigo para a sociedade e está regenerada?”, ou “como definir quem está regenerado e quem não está?”, ou “se alguém ficar 30 anos preso estará necessariamente regenerado após a liberdade?”,, ou “o que é representar perigo para a sociedade?”, ou “o gás é a única diferença entre o holocausto promovido na Alemanha Nazista e o holocausto nos presídios brasileiros?”…

Boas perguntas!

Olé

PS: Veja mais vídeos sobre o documentário em seu canal no YouTube: entrealuzeasombra.

Exibição: Em São Paulo e Minas Gerais, desde de 27/11. Rio de Janeiro, 04/12.

São Paulo (SP):
Unibanco Arteplex Frei Caneca / Shopping Frei Caneca
Rua Frei Caneca, 569 – 3º piso – Bela Vista
(11) 3472-2365

Cine Bombril / Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073 – Consolação
(11) 3285-3696

Santos (SP):
Espaço Unibanco Miramar
Av. Marechal Floriano Peixoto, 44 – Gonzaga
(13) 3284-4044

Belo Horizonte (MG):
Usina Unibanco de Cinema
Rua Aimorés, 2424 – Santo Agostinho
(31) 3337-5566

Rio de Janeiro (RJ):
Unibanco Arteplex
Praia de Botafogo, 316 – Botafogo
(21) 2559-8750




MIMO 2009

Publicado em 14 de setembro de 2009, às 00:49. | 3 Comentários

Artigo sobre Colunistas, Festivais, Música, Turismo.


Show de Hermeto Pascoal. Foto: Marcelo Lyra.
Show de Hermeto Pascoal. Foto: Marcelo Lyra.

A receita não poderia dar errado. Tenha como sede uma cidade que é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade da Unesco, com suas ladeiras encantadoras, Igrejas seculares e todo o charme inerente aos deliciosos restaurantes, ateliês e pousadas que recheiam suas vielas. Adicione músicos de altíssimo nível, com apresentações impecáveis, extremamente minuciosos, além de misturas e apresentações inéditas no Brasil. Acrescente, por fim, uma pitada de brasilidade, e um público afoito por toda esta grande mistura cultural e artística. O resultado é a Mimo, Mostra Internacional de Música em Olinda, que aconteceu de 1 a 7 de setembro na cidade de Olinda, e também teve poucas apresentações em Recife e João Pessoa, sinalizando um início de expansão da Mostra para os próximos anos.

A cidade recebeu de braços abertos o evento que chega maduro à sua 6ª edição. Com patrocínio do BNDES e da Petrobrás, e apoios de peso como da Funarte e do Ministério da Cultura, entre outros, as ruas foram tomadas e o palco para as apresentações musicais foram – com a exceção do show dos cubanos do Buena Vista Social Club – as Igrejas. E este é, possivelmente, o único problema da Mostra. É absolutamente rica, multidisciplinar e bem estruturada, mas, ao mesmo tempo, extremamente restrita.

Show do Buena Vista Social Club Stars. Por Beto Figueiroa.
Show do Buena Vista Social Club Stars. Foto: Beto Figueiroa.

Desde a divulgação anterior ao evento percebe-se certa timidez em alcançar grandes públicos, e assim se mantém no decorrer da Mimo. Muitas pessoas em Recife, por exemplo, não sabiam que estava acontecendo o evento na cidade vizinha. Os ingressos para as apresentações dentro das Igrejas eram distribuídos duas horas antes, gratuitamente. Contudo, as enormes filas que se formavam, não eram totalmente contempladas com as entradas, especialmente para as apresentações mais concorridas.

A produção encontrou duas soluções para eufemismar esta sede do grande público: A primeira foi disponibilizar telões do lado de fora de onde ocorriam as apresentações, mas que, ainda assim, era voltado apenas para um público pequeno, o que causou algumas tensões com pessoas que não assistiram ao show apenas pelo fato do telão não estar virado para fora. A segunda foi sobrepor apresentações, fazendo com que a programação se chocasse em alguns momentos e, assim, obrigando o público a escolher entre, por exemplo, terminar de assistir ao concerto de uma pianista mineira aclamada pela crítica internacional, ou tomar desde o início a apresentação de um multi-instrumentista pernambucano. É uma decisão difícil e que não pode ser tomada sem uma ponta de arrependimento – ou por deixar de prestigiar a pianista até o fim, ou por perder o início da apresentação do pernambucano. Além disso, para quem não pudesse estar aqui em Olinda, a produção disponibilizou no site da Mostra um link ao vivo.

ST. PETERSBURG STRING QUARTET, no Mosteiro de Sao Bento. Foto: Beto Figueiroa.
St. Petersburg String Quartet, no Mosteiro de Sao Bento. Foto: Beto Figueiroa.

Ainda assim, é um verdadeiro desperdício que fiquem tão compactadas as apresentações, apesar de ser indescritível a sensação de experimentar na perfeita acústica eclesiástica ao lado de obras centenárias, apresentações musicais inesquecíveis, como a de Gonzalo Rubalcaba, David Linx e Sérgio Krakowski, e do eterno mestre, Hermeto Pascoal. A solução? Se os palcos fossem externos com certeza a qualidade sonora não seria nem de longe tão boa, mas a proposta atingiria a um número muito maior de pessoas, já que o investimento para o evento é público. Além disso, diminui-se o risco de grandes concentrações dentro de patrimônios sensíveis, o grande motivo para a restrição popular. Mas dizer que a Mimo é totalmente excludente também é uma inverdade. Os ingressos eram, sim, distribuídos, além dos workshops e Master Classes desenvolvidas com alguns dos músicos participantes da Mostra, e o melhor: tudo gratuito.

Gonzalo Rubalcaba, David Linx e Sérgio Krakowski, na Igreja da Sé. Foto: Marcelo Lyra.
Gonzalo Rubalcaba, David Linx e Sérgio Krakowski, na Igreja da Sé. Foto: Marcelo Lyra.

Há que se ser justo: a Mostra Internacional de Música em Olinda é digna de ser aplaudida de pé – como foram encerradas várias das cerca de 30 apresentações que passaram por aqui – incluindo também projeções de filmes ligados ao universo da música que estiveram nas principais salas de cinema do Brasil recentemente, e poucas apresentações teatrais. Seu maior trunfo é o primor pela qualidade da programação sem nenhuma preocupação comercial. A Mimo, sem dúvida alguma, deve entrar no calendário de eventos culturais anuais que são imperdíveis, meticulosamente bem feitos e vanguardistas e, se continuar exatamente assim, do jeito que está, já pode ser considerada um verdadeiro sucesso. Mas a  Mimo pode e deve ir mais longe.

Victor Gouvêa




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