O Povo de Fazimentos
Publicado em 25 de agosto de 2008, às 16:53. | 1 Comentário
Artigo sobre Cinema, Colunistas, Estudo, Reflexão.
É bem oportuno falar sobre o povo brasileiro na época em que o Brasil vive uma fase patriótica por conta dos jogos Olímpicos. Afinal, acho que somos mesmo o povo que “não desiste nunca”. É esse o espírito que uma pequena caixinha de 13 por 19 centímetros guarda em si. O DVD duplo nomeado de O Povo Brasileiro tornou-se a minha série de documentários favoritos em poucos minutos de contato visual. São dez pequenos documentários de 30 minutos em média cada, que recontam e remontam para nós o nascimento do povo brasileiro. Idealizada pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), e baseada em seu grande e reconhecido livro também de nome O Povo Brasileiro, a série prende nossos olhos pela riqueza de detalhes, de imagens raras e de sua coletânea de arquivos de vídeos, alguns nunca publicados antes. Darcy Ribeiro aparece como um vovô simpático contando para nós suas idéia e experiências, e somos presenteados pelas participações ilustres de nomes como Chico Buarque, Tom Zé, Antônio Cândido, Aziz Ab´Sáber, Paulo Vanzolini, Gilberto Gil, Hermano Vianna, entre outras personalidades, deixando o clima leve e despretensioso.

Diferente da maioria dos documentários de seu gênero, a série é delicada ao mesmo tempo em que é muito inteligente. Textos de Camões, Fernando Pessoa e outros tomam um tom descontraído e muito próximo de nós. Não é a toa que ao final de cada vídeo queremos logo ver mais um.
Logicamente, o caráter educativo prevalece ao caráter artístico dos vídeos, mas a edição e a montagem das imagens, que acompanham músicas do mais bom gosto, são muito bem trabalhadas.
Mas para quem conhece um pouco de Darcy Ribeiro, já pode dizer que vindo dele, pouco não se pode esperar. Mineiro, Darcy Ribeiro sempre foi destaque em seus estudos e projetos. Forma-se em São Paulo em Antropologia aos 24 anos, e quando acabara de colocar seus pés fora da faculdade, já se envolveu em pesquisas e causas indígenas, todos de valores incontestáveis e que mereceriam um novo artigo para serem discutidos. Com apenas 30 anos, já envolvido também pelos dilemas educacionais, torna-se Ministro da Educação, no Gabinete Hermes Lima. Sua vida política também envolve seu ingresso como Ministro-Chefe da Casa Civil do Presidente João Goulart em 1963, Vice-Governador do Rio de Janeiro em 1982, Secretário da Cultura e Coordenador do Programa Especial de Educação, e Senador da República de 1991 a 97. E tudo isso junto à sua imersão em projetos sérios e em sua maioria bem sucedidos.
(…) Minhas características distintivas talvez sejam a contraditória vontade insofreável de compreender e o gosto de fazer, que me converteram em híbrido de intelectual e fazedor.
(…) Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com minha marca nos mundos que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais.
(…) Sou um homem de fazimentos.
Não é a toa que um homem tão apaixonado por sua vida e pelos seus fazimentos, nos deixa uma obra que nos dá mais orgulho de sermos brasileiros do que qualquer conquista Olímpica. O conteúdo dessa caixinha e desses dois DVDs deixa claro que a nossa conquista corre por nossas veias…nós somos feitos, fisicamente, de nossas vitórias, e até de nossas derrotas. Os índios, os portugueses, os africanos, e mais todos aqueles que ousaram cruzar, literalmente, a nossa história, nos deu o sangue singular e ao mesmo tempo pluralizado que temos hoje. Darcy Ribeiro e seus 10 singulares vídeos que falam nada mais nada menos do que sobre nós, varre nossos preconceitos e coroa nossos feitos.
Não pretendo perder aqui o meu e o seu tão precioso tempo tentando traduzir o conteúdo desses vídeos com minhas palavras. Vê-los te trará, com certeza, novos e curiosos conhecimentos sobre você mesmo. Conhecimentos que certamente farão sua língua coçar em conversas simples como numa mesa de bar, pois os assuntos trabalhados pelo O Povo Brasileiro se encaixam perfeitamente na nossa vida.
Pelas lindas imagens que emberçam os assuntos trabalhados, digo que fale a pena procurar pelo DVD. Mas outra alternativa é acompanhar os capítulos pelo youtube. Seguem os links dos três primeiros capítulos:
1. Matriz Tupi
2. Matriz Lusa
3. Matriz Afro
1. Matriz TUPI - Parte A
1. Matriz TUPI - Parte B
1. Matriz TUPI - Parte C
2. Matriz LUSA - Parte A
2. Matriz LUSA - Parte B
2. Matriz LUSA - Parte C
3. Matriz AFRO - Parte A
3. Matriz AFRO - Parte B
3. Matriz AFRO - Parte C
Para quem quiser estudar mais sobre o genial Darcy Ribeiro, há um conteúdo muito completo no endereço da Fundação Darcy Ribeiro. A Fundação idealizada por Darcy Ribeiro deveria estar em Brasília, mas hoje ainda está localizada no Rio de Janeiro. No site está a bibliografia e biografia completa deste que não passou e jamais passará despercebido.
Para quem quiser embarcar numa viagem dentro de sua própria história, este é o perfeito jeito de começar! Boa viagem!
Karina Polycarpo
Voto Inconsciente
Publicado em 20 de agosto de 2008, às 2:14. | Deixe um comentário!
Artigo sobre Cultura Popular, Reflexão.
O Brasil é um país muito peculiar. Um mundo mágico onde o povo prefere que a seleção ganhe um mundial a cada quatro anos do que eleger um bom representante para política no mesmo período. Com isto vão se reproduzindo algumas figuras mais do que comuns no comando nacional, como o “Rouba-mas-faz” ou o “Picolé-de-chuchu”.
Difícil entender este país. Podemos buscar as Raízes do Brasil em Casa-Grande & Senzala para entender a Formação do Brasil Contemporâneo. Mas mesmo depois desta atenta leitura que reconstroi nosso passado, acabo por achar também que ele já traçou nosso futuro para um lado nada otimista. O que pode explicar um pouco nosso presente, que não está nada bom.
Neste meio somos convocados obrigatóriamente a votar para prefeito e vereador neste outubro próximo. Entre os candidatos estão como sempre misturadas velhas e novas caras políticas, sem muitas surpresas. O importante é comparecer acreditando sempre que seu voto pode fazer a diferença para mudar a cara da política.
Não adianta comparecer às urnas e digitar qualquer número porque todos os candidatos lhe parecem iguais. Mesmo o voto branco ou nulo tem um valor e representa a vontade de uma parte da população que não está contente com os candidatos apresentados.
Estamos na campanha pelo Voto Consciente. Onde cada cidadão é uma força que pode mudar o rumo de nossa política. Onde cada voto feito de maneira lúcida e consciente, com conhecimento de causa, pode ajudar a mudar este Mapa da Corrupção Nacional.
Para conhecer um pouco mais sobre o movimento acesse o site: votoconsciente.org. Para conhecer um pouco mais sobre os candidatos destas eleições entre neste site e descubra quais são os processos que correm contra eles na justiça.
Daniel Possa
A gente somos inútil
Publicado em 4 de agosto de 2008, às 3:08. | 2 Comentários
Artigo sobre Reflexão, Turismo.
Não vou fazer cerimônias. Quando você pensar em ir a Ouro Preto, saindo de São Paulo, não viaje com a empresa de ônibus ÚTIL. Vale mais a pena ir para Belo Horizonte e lá pegar outro ônibus para Ouro Preto. Ah, vou mais longe: nunca compre uma passagem da empresa ÚTIL! Não viaje com eles nem de graça!
Confesso ter parcela de culpa também, afinal, cheguei atrasado para a partida, marcada para as 19h45. Ainda tentei alcançar o ônibus com um taxi, mas não teve jeito. De volta à rodoviária, mais precisamente ao guichê da empresa, tentei conversar sobre a situação (a passagem custa quase R$ 100,00!) mas foram irredutíveis! Queriam ficar a todo custo com o meu dinheiro e de mais duas pessoas (Lucas e Aninha). Os funcionários desta empresa não são treinados para resolver problemas, e sim para serem máquinas caça-níqueis. A Útil faturou (significado popular) trezentos reais! Parabéns!
Qualquer livro que se propõe a introduzir o Turismo diz que poltronas vazias durante uma viagem (assim como quartos não-ocupados, por exemplo) têm validade. Funciona da mesma maneira que alimentos perecíveis, se não forem vendidos dentro de um certo prazo, eles estragam. Não há como vender uma passagem de uma viagem que já aconteceu; locar um quarto para o final de semana passado… O tempo é fator vital para a atividade. Vendendo ou não vendendo, quem trabalha com turismo continua tendo custos (fixos e variáveis).
Por outro lado, a taxa de ocupação (ocupação real divido pela possibilidade total de ocupação) não é tão próxima dos 100%, salve algumas exceções. Então, é sabido que nem todas os lugares serão vendidos, logo, é muito provável que poltronas viajassem vazias. Aqui eu faço a pergunta: por que não colocar os CLIENTES, que por ventura perderam aquele ônibus, no próximo vago?
Outra possibilidade era devolver uma parcela da passagem. Assim como até os hotéis mais fuleiros fazem, exige-se uma parcela da estada para garantir a reserva e caso o cliente não possa ir, esta parcela fica para o hotel. Justo. Aqueles custos citados acima entram nesta parcela e a empresa não sofre com isso.
Nem um, nem outro. Preferiam deixar as poltronas do próximo horário vazias a nos levar. Não tínhamos nenhuma importância pra eles. Era como se fossemos carga. Me senti um pacote largado em um terminal de cargas. Sensação horrível.
Nossas alternativas eram: voltar para casa (e perder também a passagem de volta já comprada) ou fazer a rota SP – BH - Ouro Preto.
Às 21h45 partíamos para a capital mineira em um ônibus leito da Cometa e que parava no máximo duas vezes durante a viagem. Vale dizer que os funcionários desta empresa nos disseram que, se o problema fosse com eles, nossa passagem seria transferida para o próximo horário (caso houvesse poltrona disponível) sem nenhum problema! Aqui também cabe dizer que fomos muito bem acolhidos e que a viagem foi muito boa.
Exatamente às seis da manhã, desembarcamos na rodoviária de BH. Como foram 80 reais nesta última passagem, Lucas e eu pensamos em pedir carona até Ouro Preto. Aninha comprou o trajeto final (R$ 20,00). Nós dois a deixamos na rodoviária e seguimos em direção à saída da cidade, “onde passavam os caminhões”.
Depois de milhares de recusas, xingamentos, cuspidas (que passaram bem perto!), muitos quilômetros rodados a pé, risco de atropelamento em uma ponte altíssima sem acostamento em que os caminhoneiros desviavam dos infinitos buracos, resolvemos abortar a missão pegando um dos vários ônibus da Pássaro Verde que passavam por ali com destino a OP. Afinal, além de tudo, não poderíamos perder a visita técnica com o professor Mário Jorge.
Quando encontramos o restante do pessoal, descobrimos que a Aninha chegou com apenas uma hora e meia de diferença. Quem saiu no horário com a Ùtil parou em diversas cidades (demorou muito) e o ônibus não era confortável como o nosso.
Por nossa passagem de volta já estar comprada, não tivemos escolha: tinha que ser com a famigerada empresa. Para resumir: o motorista que nos levaria estava atrasado e um outro ficou enrolando, dando voltas, estacionou na rua… tudo para esperar o cara chegar! Como, além disso, o ônibus para em diversas cidades, o motorista quis tirar seu atraso enfiando o pé no acelerador. Não deu tempo decente para a parada e falou mal de um passageiro para nós (outros passageiros)! O rapaz não podia atrasar dois minutos, mas ele podia chegar atrasado! Sem contar que não havia água lacrada; o funcionário que abre o bagageiro demorou 10 minutos para chegar na plataforma de desembarque…
Você pode pensar que isso tudo foi muito pontual, mas nem todos da minha sala voltaram no mesmo horário e também tiveram problemas.
Por tudo isso, aconselho quem precisar utilizar os serviços da União Transporte Interestadual de Luxo S/A, por ironia mais conhecida por ÚTIL, que a evite a todo custo para ter uma viagem sem amadorismos.
Boas viagens!
Olé
Era outra vez… Até quando?
Publicado em 17 de julho de 2008, às 2:02. | 3 Comentários
Artigo sobre Cinema, Reflexão.
Dia 25 de julho o filme brasileiro Era uma vez… de Breno Silveira entra em cartaz nas telonas. Se eu disser que é do mesmo diretor de 2 Filhos de Francisco (filme da trajetória da dupla Zezé Di Camargo & Luciano) talvez você fique com o pé atrás. E se adicionar o fato de que este filme é um Romeu e Julieta passado no Rio de Janeiro contemporâneo, sendo que o Romeu é da Favela do Cantagalo e a Julieta, moradora de Ipanema, é provável que você não tenha vontade de assisti-lo. Mas, apesar dessas primeiras impressões tendenciosas, digo que vale a pena sim.
Os críticos podem dizer que virou moda há algum tempo fazer filmes retratando favela, pobreza, etc, onde o objetivo final é a bilheteria. Vamos separar as coisas. É fato que as grandes produtoras querem se aproveitar do fenômeno BOPE, o que não quer dizer que os cineastas não podem colocar tais questões em voga, afinal, os problemas estão aí e, pelo visto, não queremos discuti-los. Só empurramos com a barriga! A periferia terá que gritar da mesma maneira que o fez na França em 2005 para ser notada? É fato que Tropa de Elite trouxe à tona muitas de nossas hipocrisias, mas muita gente interpretou errado: elegeram o Capitão Nascimento como presidente do Brasil! Tudo ao contrário! Então, partindo da máxima democrática que as discussões devem acontecer para encontrarmos soluções, como dizer que o tema está encerrado? Será que já é hora de irmos procurar o Parnaso, assim como muitos entendidos do cinema dirão? Está muito claro que não.
Tema justificado, podemos falar do filme em si. O diretor trouxe um ar muito poético para a questão. Este é o seu maior mérito. A sensibilidade é enorme e está retratada em várias cenas. A importância da ternura nos relacionamentos pode ser uma sugestão de caminho para a resolução de nossos problemas sociais. A fotografia acompanhou esta ingenuidade com seu colorido vibrante, sua delicadeza, sua simplicidade e sua sinceridade.
Neste ponto, entra a “amaciada” do filme anterior. Era uma vez… estava há mais ou menos 10 anos na mente do diretor. Poucos se interessaram pela idéia. É ai que 2 filhos de Francisco aparecem, tanto abrindo as portas para este projeto como para o autoconhecimento do Breno. Ele nos confessou que a princípio não queria fazer as filmagens da dupla sertaneja. Sua opinião mudou depois de conhecer a história do pai deles. E não só sua opinião, mas seu jeito de fazer cinema, sua maneira de ver o mundo…: tudo com mais poesia.
Porém, como a proposta era ser um Romeu e Julieta adaptado para os dias de hoje, os porquês do enredo eram o maior desafio e, infelizmente, não foram bem resolvidos. Você deve abstrair isso. Por mais estranhas e absurdas que possam parecer algumas passagens, tente, pelo menos durante o filme, não criticá-las e entrar de cabeça na história. Saí da sessão ofegante e demorei para processar algumas coisas porque o filme é forte. Perguntei ao Breno qual era a reação que esperava daquele mesmo público que entendeu errado Tropa de Elite. Ele se esquivou um pouco, mas acha que causará muita polêmica. Não tenho a menor dúvida disso!
Mesmo com os problemas que eu coloquei, vale o ingresso sim, afinal erros acontecem. Não dá pra esperar somente obras-primas de todo mundo. E para um artista ter uma obra em seu estágio pleno, geralmente, houve muita experimentação.
Boa sessão!
Olé
Morreram de overdose
Publicado em 10 de julho de 2008, às 21:49. | 1 Comentário
Artigo sobre Reflexão, Televisão, Turismo.
É provável que você já tenha visto estes comerciais encomendados pelo TSE. Acho-os muito bonitos. Um belo texto, em duas versões: uma narrada por uma criança e outra narrada pelo Abujamra. Difícil não admirar.
Versão narrada pela criança
Versão narrada por Antônio Abujamra
Um amigo meu me disse recentemente que “publicidade é diferente de arte”. Sabe-se que as artes são, desde tempos remotos, usadas como divulgadoras de idéias, com todos os seus apelos argumentativos. Não quero discutir aqui se publicidade é arte (muito menos definir uma das duas!). Só mostrar que as coisas não podem estar tão distantes assim. Se não puder dizer que ela é arte (ou artística), pelo menos que me deixem dizer que está a beira dela. Não dá pra negar que nestes segundos nos transportam para aquele passado recente, combativo, com causa clara. Os ícones, o texto, a narração… transmitem a idéia de que tudo aquilo não foi só sonho e nem à toa.
Só não podemos nos esquecer de algumas coisas: da impunidade da ditadura; de que se fizermos esse balanço, praticamente as vidas das pessoas que lutaram, de nada valeram; de que são poucos os políticos sérios por aqui; de que falta informação (conhecimento) para grande parte da população; de que ainda vivemos uma ditadura velada…
Ao mesmo tempo, podemos interpretar esses comerciais da maneira que o TSE deseja: transformar o caráter obrigatório em um direito (sem contar a intenção dos jovens tirarem o título de eleitor o mais rápido possível). Ou ir além, discutindo, cobrando, nos tornando realmente mais ativos politicamente.
O único limite que existe (por mais tênue que seja) entre a esperança e o pessimismo é o que faremos depois das urnas. É… quem sabe daqui a algumas décadas as coisas melhorem, não?
Olé





















